CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Andreia Nunes + Sara Vale

Pipis à Portuguesa

Quando lemos esta frase pensamos na conhecida receita que junta miúdos de frango, cebola picada, alho, louro, vinho branco e por aí vai…


Mas o que nos leva a escrever esta crónica a duas mãos, quais “aranhas” inspiradas nas (3) Marias antes de nós, são os Pipis DAS Mulheres Portuguesas.


Mais concretamente, gostaríamos de refletir sobre as vergonhosas taxas de episiotomia praticadas no nosso País e as dificuldades que muitas mulheres experienciam em voltar a ter relações sexuais e a sentirem-se bem com o seu corpo.


Várias mulheres que foram sujeitas a esta intervenção revelam que, mesmo depois de bem cicatrizado o corte de episiotomia (que pode ter ocorrido semanas ou meses antes da primeira relação sexual pós-parto) sentem uma dor física ou psicológica – uma sensação de que algo tão íntimo e “frágil” foi cortado – e no ato sexual dão por si a contrair-se, com receio de que aquele corte se reabra e experienciam medo, dor e desconforto.


Outras mulheres parecem recuperar totalmente desta intervenção passado algum tempo, regressando à vida sexual em pleno. Mas convenhamos, um períneo intacto é melhor que um períneo que foi cortado. Na verdade, as mulheres que tiveram uma laceração (natural) mínima (a de grau 1 é a mais comum) ou que não levaram sequer pontos, parecem regressar de forma mais facilitada à sua vida sexual. Então deixem os nossos pipis em paz!


A episiotomia foi já classificada como uma forma de mutilação genital feminina, mas é ainda uma intervenção feita amiúde em vários países, incluindo o nosso. Esta intervenção consiste num corte realizado no períneo, a área entre a vagina e o ânus, para o canal de parto (equivalente a uma laceração de grau 2 e que aumenta as hipóteses de lacerações de grau 3 e 4), procedimento que ganhou terreno quando o parto se foi tornando cada vez mais medicalizado, com o argumento de que facilitava a expulsão.


Até 2018 a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendava uma percentagem de episiotomia de cerca de 10% dos casos (atualmente afirma apenas que o uso rotineiro não é recomendado). A taxa de Portugal de realização deste procedimento é de 70%. É das mais altas da Europa.


O que se passa com os pipis das portuguesas? Será que somos pipis incapacitados que precisam de cortes? E depois de costura… é o “pontinho do marido”, “é para ficar mais apertadinha” – Uma violência obstétrica é o que é.


O recusar da evidência científica atual que reitera que cortar nem sempre é melhor que rasgar, por profissionais que, em adição, têm dificuldade em colocar em causa as práticas que já realizam há anos, juntamente com o desconhecimento dos direitos e alternativas por parte das mulheres – são ingredientes de uma receita perigosa para esta forma de violência contra as mulheres.


A episiotomia surge como consequência de um parto que já vem muito intervencionado. Reza a história que a posição da mulher deitada de costas não foi inventada para seu conforto ou sequer por ser a mais indicada, mas foi sim sugerida pelo Rei Francês Luís XIV que tinha uma fascinação em assistir aos partos dos seus mais de 20 filhos. Esta posição, de “frango assado”, na qual a mulher está deitada, com as pernas apoiadas nos estribos, parece estar associada à maior probabilidade de necessidade de epidural, a intervenções como a manobra de kristeller e também a uma maior dificuldade na expulsão – o que potencia o recurso à episiotomia. Por isso a prevenção começa mais atrás, possibilitando à mulher uma escolha informada sobre os seus direitos, sobre profissionais que se alinhem com os seus valores e visão do parto, com liberdade de movimentos, um parto ativo, na vertical, se assim entender, com uma expulsão suave e sem pressas – tudo coisas que podem evitar a laceração e permitir que o bebé nasça gradualmente. Durante a expulsão, a mulher vai sentir pressão, e uma vontade incontrolável de fazer força. Vai apoiar-se, proteger-se, colocar-se da forma como lhe dá mais jeito. Assim como tiramos uma pedra do sapato e afastamos uma madeixa de cabelo, sabemos naturalmente proteger o nosso períneo – adotamos a posição que ajuda o bebé a negociar a sua passagem e saída.


Conhecemos várias mulheres que desde adolescentes receiam esta intervenção. Muitas ponderam fazer cesariana, mesmo que no privado, para evitar este corte. Muitas mulheres ficaram traumatizadas por passar por esta experiência, revelando receio em voltar a ter relações sexuais, complicações associadas à cicatrização e (perda de) sensibilidade vaginal. Este desconforto/dor poderá ser classificado de dispareunia e alguns estudos científicos têm de facto reportado que a probabilidade de dispareunia aumenta nas mulheres que tiveram parto vaginal com recurso a episiotomia.


Mas se existem uma série de complicações associadas e se a maioria das razões justificativas da episiotomia são rebatidas à luz das mais recentes evidências científicas, o que podemos fazer para proteger os nossos pipis e as nossas mulheres de uma intervenção (na maioria dos casos) desnecessária?


Gostaríamos de dar a conhecer o trabalho da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APGMP) que se tem dedicado a esta temática, desde a sua fundação e que inclusivamente incluiu dados sobre a mesma no relatório Sombra para a CEDAW (Convenção para a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra as Mulheres) em 2016, e agora em 2020. A associação disponibiliza informação e documentação para capacitar e empoderar as mulheres, reforçando que nenhum protocolo hospitalar está acima por lei, da vontade da mulher.


Uma das vozes em desfavor deste corte é também a da obstetra Mariana Torres, cujo trabalho vos convidamos a acompanhar, e que há 7 anos e em quase 200 partos não realizou nenhuma episiotomia. Conhecemos até mulheres que dizem que só terão o próximo filho se for com ela!


Nos próximos dias estaremos a recolher alguns testemunhos sobre experiências de parto e o regresso à vida sexual nas redes sociais da APDMGP, não se esqueçam de deixar lá o vosso, quer tenham experienciado dificuldade em regressar à vida sexual, ou pelo contrário, se estiver a correr tudo bem e quiserem partilhar dicas e profissionais com quem podemos contar! Este convite é extensível aos e às parceirxs!
E vivam os pipis das portuguesas e das mulheres pelo mundo!




Andreia Nunes —— Socióloga, Feminista
Sara Vale —— Doula, Presidente da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto

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