James Joyce, em Dezembro de 1909, começou assim uma carta para a mulher que amava: «Minha doce putinha Nora, Fiz como mandaste, sua badalhocazita, e bati duas pívias enquanto lia a tua carta. Delicia-me saber que gostas à canzana. Sim, lembro-me agora daquela noite que te comi por trás durante tanto tempo. Foi, minha querida, a mais porca das fodas que te dei. O meu caralho ficou enfiado dentro de ti durante horas (…) Tinhas, nessa noite, uma peida cheia de peidos, minha querida, e eu fodi-os até os fazer sair de dentro de ti, uns espécimes grandes e gordos, outros longos e ventosos.» 

Há quem fale em obscenidade quando comenta estas cartas de Joyce, mas a intenção das missivas era erótica: o escritor, estando longe de Nora, queria apenas manter uma relação apaixonada. A obscenidade ao serviço do erotismo parece uma contradição, mas não é incomum. As promessas sussurradas de uma felicidade que  se avizinha, a sua descrição, a imaginação e antevisão, bem como recordações que possam inspirar ou instigar os próximos encontros e a sua materialização, aumentam o desejo, o pathos, a tensão. Noutras situações, no entanto, a obscenidade é somente o obviar da promessa e não o caminho até essa mesma concretização: nesse caso, é a brusquidão que define a obscenidade, é a ausência de caminho, é o homem que vai entregar umas pizzas para de repente, na cena seguinte, se encontrar a gemer a caminho do inexorável money shot. A imaginação e a expectativa, a esperança e os medos foram erradicados do processo e a possibilidade de passeio eliminada. A isto soma-se o fenómeno expectável da inanidade do próprio resultado: depois de sacrificada a experiência pelo surgimento abrupto de um final sem história (desejar chegar a Ítaca e sermos teletransportados para Ítaca impede a existência da Odisseia: a história deixou de existir), vemo-nos a braços com um vazio gerado pela consumação do desejo. Erich Fromm, em Anatomia da Destrutividade Humana, descreve profeticamente, com umas décadas de antecedência, um fenómeno que é hoje muito mais disseminado ou mesmo omnipresente: «Alguém que tenha a oportunidade de observar turistas – ou talvez a si próprio – perceberá que tirar fotografias substituiu o acto de ver. É claro que temos de olhar para apontar a lente para o objecto desejado (…) mas olhar não é ver. Ver é uma das maiores dádivas que o ser humano dispõe; exige actividade, abertura interior, interesse, paciência, concentração. Disparar uma câmara (a agressividade da expressão é significativa) corresponde a transformar o acto de ver num objecto. – que poderá ser exibido depois aos amigos como prova de que esteve naquele lugar.» 

Este modo de ver é uma definição de obscenidade: tiramos uma fotografia sem realmente ver, como quem tem um orgasmo sem ter percorrido o caminho até ele, sem os intervenientes — neste caso, turista e paisagem — se terem conhecido, sem se terem apaixonado, sem terem trocado pelo menos duas ou três palavras. O viajante que não dialoga com a viagem dificilmente terá uma experiência transformadora. Não pretendo com isto desvalorizar a obscenidade ou diminuir-lhe a importância — porque a tem —, mas creio que a sua relação com o consumo imediato, instantâneo, com a voragem que nos faz emborcar a vida sem a mastigar, impede a sua preciosa e necessária fruição. Falta-nos muitas vezes o lânguido hedonismo do prazer lento e do vagar arrastado do erotismo em que a consumação prometida, a existir, é adiada, levando o seu tempo e vagar. 

Posto isto, é evidente que há conquistas que devem ser imediatas, sem prelúdios, como por exemplo a aplicação universal dos direitos humanos (aqui há também outro tipo de obscenidade: não há nada mais obsceno do que a fome ou a injustiça ou a opressão). Percebemos, assim, que existem vários tipos de obscenidade cuja valência não é a priori boa ou má, mas que se define pela sua aplicação: saber quando devemos à vida algum vagar ou urgência é essencial para uma vida boa; saber quando devemos misturar obscenidade e erotismo, como fez Joyce (usando linguagem obscena com intuito erótico); saber que há momentos em que simplesmente necessitamos de chegar a Ítaca; saber que há outros em que precisamos de passear e não de metas. O problema da obscenidade é o uso equivocado: quando se adia um acto que se quer urgente ou quando abdicamos de um processo enriquecedor em troca de um instante de euforia.


Afonso Cruz —— escritor