O que é proibido no sexo? E quando há consentimento, mas não há vontade? —— No sexo não há o pôr-se a jeito. Mesmo depois de um momento de sedução mútua, mesmo no interior de um quarto, já despidos, e perto do momento de se iniciar um ato sexual com alguém – ou mesmo a meio do ato – quando uma das partes diz ‘não’, que não quer mais, que não quer ter sexo, essa vontade deve ser ouvida e respeitada. E se mesmo assim a pessoa for forçada ou manipulada a envolver-se num ato sexual, isso é abuso e um crime previsto na lei. Mas neste campo há muitas zonas cinzentas, ambiguidades, silêncios e ‘nins’ que importa desmontar e descodificar. Será que todos sabemos mesmo o que implica sexo com consentimento? E quando o sexo é feito com a concordância de ambos, mas sem a real vontade de uma das partes envolvidas? Na semana em que deu entrada uma petição online que pede urgência ao Parlamento para converter o crime de violação em crime público, que já recolheu mais de 47 mil assinaturas, o jornalista Bernardo Mendonça e a psicoterapeuta e sexóloga Marta Crawford discutem as balizas do consentimento

A partir dos 40 estamos regra geral menos maleáveis para as novas relações, a personalidade está bem definida, os hábitos, os vícios, as manias, os gostos. E a equação do novo ‘nós’ pode ser mais desafiante em idades mais maduras. É o que defende Maria João Teixeira, 40 anos, produtora e criadora de conteúdos, que defende que o sexo entre o casal deve apenas ser feito quando há vontade de ambos e tem uma posição muito clara sobre as camas que passaram por histórias amorosas passadas. “Colchões a arder.” Por outro lado, a curadora Cláudia Camacho, de 40 anos, assume que está a usar esta fase de maior confinamento para curar feridas emocionais, refletir, reorganizar-se interiormente e a ter mais tempo para si depois de uma delicada separação.

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140.000

Número de pessoas LGBTQI+ que afirmou já ter sofrido de discriminação, assédio e/ou violência, segundo um inquérito europeu realizado em 2019. Destas, cerca de 10% referiu ter sido alvo de algum ataque físico ou sexual nos últimos 5 anos e 38% relatou ter sido vítima de assédio no ano anterior. A maioria destas situações não foi reportada às autoridades maioritariamente com receio de reações homofóbicas/transfóbicas por parte das autoridades policiais.

Fonte: LGBTI equality – European Union Agency for Fundamental Rights

crónica —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Aldina Duarte

“Crónica Feminina”

O tempo do engatatão e da vadia, duas visões opostas para a mesma realidade, não acabou e tem consequências danosas para as mulheres, ao ponto de, em tribunal, legitimar a violação! Quantas de nós já tiveram de pensar no tamanho da saia ou do decote, na transparência do vestido ou da blusa, aquando de uma entrevista de trabalho ou na apresentação de um projecto em que queremos ser ouvidas com respeito, ou mesmo, e até é penoso dizer isto, quais as cuecas ou soutien a usar numa ida ao médico.

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Fizemos várias perguntas aos nossos seguidores no Instagram a propósito do tema discutido no episódio anterior, “Como sobreviver a uma separação?” Marta Crawford comenta aqui as respostas que nos enviaram. 

ENTREVISTA

Dulce Maria Cardoso

Portugal tem números vergonhosos de violência doméstica, e isso por si já seria um fortíssimo ponto negativo sobre o poder das mulheres. Porque a maioria das vítimas são mulheres. Mas há ainda um estigma social, aquele estigma de que se um homem tem várias amantes é muito bom e se uma mulher os tem, chamam-lhe nomes menos bonitos e já não é confiável, e já não se quer para ser mãe dos nossos filhos.

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crónica —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Nelson Nunes

A natureza de uma ‘crush’

A crush nem sequer chega a ser ‘estar apaixonado’. Mas também é mais do que um mero interesse nas ideias daquela pessoa ou no suspiro diante dos seus lindos olhos. Está ali a meio caminho. É uma antecâmara da paixão. E, por causa da lei das infinitas possibilidades, damos por nós a imaginar o que queremos e não queremos: uma viagem a um sítio que não conhecemos, os passeios por sítios onde já estivemos, os problemas que teremos, até o aborrecimento de estar a ver um filme ranhoso debaixo de uma manta numa noite invernosa.

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53.9%

Percentagem de pessoas que afirmam ter sofrido pelo menos um ato de violência no namoro, de acordo com uma amostra de 3256 participantes, segundo um estudo realizado entre abril de 2017 e janeiro de 2020. Destes, 9,5% das mulheres relataram já terem sido obrigadas a ter comportamentos sexuais não desejados (ex: ver pornografia, fazer sexo oral ou anal, ter relações sexuais com outras pessoas), 9% foram forçadas a ter relações sexuais e 4,5% viram divulgadas imagens ou vídeos pessoais de cariz sexual, sem consentimento. Nos caso dos homens, 5,2% afirmaram ter sido obrigados a ter comportamentos sexuais não desejados, 4,6% referiram ter sido forçados a ter relações sexuais e 3,4% viram ser divulgadas imagens ou vídeos pessoais, de cariz sexual, sem consentimento.

Fonte: Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro em Contexto Universitário — Crenças e Práticas, Associação Plano I, realizado entre Abril de 2017 e Janeiro de 2020 – CIG

“Não” é “não”. Não há o “não que não percebi” ou o “não que parecia um sim”. Quando alguém diz que não, é porque não quer continuar, mesmo que tenha havido um jogo de sedução ou já estejam todos nus. Se naquela altura alguém decidir que não quer continuar, tem o direito de interromper.

Marta Crawford

A pílula contraceptiva foi inventada por Gregory Pincus, nos Estados Unidos da América, e comercializado a partir de 1960. A pílula Enadin-10 permitiu às mulheres, a partir desse momento, decidirem quando querem ter filhos.

crónica —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Patrícia Reis

Sexo por boa educação? Não, obrigada

Não creio que seja possível ser 100% sincero com quem se ama, porque existe, voltamos ao mesmo, essa hipótese de magoar e quando se ama não se quer dor ou sofrimento, quer-se bonomia, bem-estar e riso. Mas sexo só por boa educação ou por frete? Não, obrigada.

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187

Número de violações (contra crianças ou adultos), em 2019, segundo o relatório anual de 2019 da APAV. Ainda nesse ano, foram contabilizados 699 casos de pornografia de menores, 25 de assédio sexual, 305 de abuso sexual de crianças com idade inferior a 14 anos, outros 17 de coação sexual e 89 outros crimes sexuais.

Fonte: APAV

“Ainda há quem use o poder, a força, o conhecimento, a idade, para ter sexo com outra pessoa que não tem vontade. Mas manipular e assediar uma pessoa para ter sexo é crime.”

Bernardo Mendonça

crónica —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Diana Santos

Pipi Público

Hoje vou falar-vos do mito nº 1, o de que a pessoa com deficiência é assexuada e que não tem, por isso, desejos, interesses nem necessidades sexuais. Por isso, somos tidos como eternas “crianças” e ternos “anjinhos”, ou seja, puras e sem maldade, com pipis e não com vaginas portanto.

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A diferença entre um animal e um ser humano é a sua capacidade cognitiva e racional. Se não tens capacidade de gerir as tuas emoções e raivas, necessidades mais animais, tens que pedir ajuda a quem te possa ajudar – um médico psiquiatra, a um psicólogo – para te ajudar a gerir as tuas emoções perante a sexualidade e intimidade.

Marta Crawford

crónica —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Sílvia Baptista

Sexualidade em stereo

Vamo-nos libertando nos costumes mas a vida interna está cada vez mais presa e talvez ambas as razões não se excluam mutuamente. Num tempo em que as conquistas sexuais se tornaram desporto mundial e os impulsos se gratificam com umas voltas no Tinder, onde fica o erótico? Mais: onde fica o desejo?

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Do menu de degustação desta semana constam os seguintes pratos: “VOX: Uma conversa telefónica sobre sexo”, de Nicholson Baker; “Teoria King Kong”, de Virginie Despentes; o filme “Promising Young Woman”, de Emerald Fennell e ainda a série “Unbelievable”, de Susannah Grant, Ayelet Waldman e Michael Chabon. Desfrutem!

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Algumas Rainhas foram sendo apontadas como infiéis aos seus maridos, regra geral pelos seus detratores, que na falta de um bom argumento, só lhes restava atacar a moral. Segundo tais rumores, Maria Antonieta teria tido um filho do Conde Fersen; Carlota Joaquina de Bourbon teria tido outro de um serviçal da quinta do Ramalhal em Sintra; Maria Luísa de Parma terá tido também um filho bastardo do primeiro ministro espanhol Manuel de Godoy. Ainda hoje se continua a atacar a moral das mulheres da mesma forma.

A violência sexual é um crime. Denuncie ou peça ajuda

Se for vítima de violência sexual ou conhecer alguém nessa situação, existem várias associações e organismos que podem ajudar na denúncia e apoio à vítima. Todas as pessoas têm o direito de procurar apoio, independentemente do tempo que decorreu desde a agressão. Lembre-se que a culpa nunca é da vítima, a responsabilidade é sempre dos agressores.

Contactos

CARE — Rede de Apoio a Crianças e Jovens Vítimas de Violência Sexual
care@apav.pt

APAV — Através da Linha de Apoio à Vítima (gratuita)
116 006 (dias úteis, das 9h às 21h)
Linha Internet Segura: 800 219 090
Na APAV encontra apoios jurídicos, psicológicos e sociais.

Pode sempre contactar, através do 112
Polícia de Segurança Pública,
a Guarda Nacional Republicana
ou a Polícia Judiciária.

SOS Voz Amiga
213 544 545

Petição para que a violação passe a crime público

A violação não é considerada um crime público em Portugal e, tal como está na lei portuguesa, é um crime com prazo de validade. Só é aberta uma investigação por iniciativa da vítima, que tem apenas seis meses para apresentar queixa numa esquadra da polícia. Ao ser considerado um crime semipúblico, a denúncia só pode ser feita pela pessoa agredida, não podendo o Ministério Público (MP) desencadear automaticamente uma investigação sem permissão expressa da vítima. Por outro lado, o crime de violação de menores é já um crime público, que permite ao Ministério Público ter competências para iniciar a ação penal. Segundo o Relatório Anual da Segurança Interna (RASI), em 2019 foram registadas 431 violações, e foi o terceiro ano consecutivo de subida dos números deste crime. Passar o crime de violação para crime público é estar um passo mais perto da proteção de todas as vítimas. 

Se concordar assine:

Play Video

Porque as questões do consentimento e não consentimento ainda parecem confusas para muita gente, a polícia britânica fez uma campanha destinada a explicar aos mais distraídos que NÃO é mesmo NÃO! A campanha incluiu este vídeo, em que se faz uma comparação com o ritual britânico do chá, para esclarecer que aquilo que parece óbvio, às vezes não é. A ideia é basicamente esta: Imagina que em vez de iniciares uma relação sexual, estás a fazer chá. Tu dizes: “Hey, queres uma chávena de chá?” E a resposta é… O melhor é verem o vídeo.

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