crónica —— dentro de mim

Marta Crawford

It takes two for tango

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Parou no sinal vermelho e continuou a cantarolar a sua nova crush musical de Piazzola. Reparou num urinol público que estava na praceta. Era raro encontrar “sumidoros públicos” como aquele: sem portas, entrava-se, circulava-se e descarregava-se. Feito para homens, claro para “funccções naturaes, que a decência manda ocultar”, segundo o edital da Câmara Municipal de Lisboa de 1953. Nenhuma mulher se atreveria a dar uso aquele espaço, quer pela falta de condições, quer pela pouca higiene que apresentavam. Urinóis para homens, numa época em que as mulheres não faziam xixi fora de casa. 


Perdida nos seus pensamentos, imaginou o tipo de homens que ainda utilizavam aquele tipo de mictório. Velhos, admitiu. O semáforo não mudava de cor e os carros atrás de si começaram a apitar. Ignorou. Estava demasiada curiosa a examinar aquela raridade, quando reparou que umas pernas esbeltas tinham acabado de entrar por uma das entradas, que se encontrava do lado oposto onde se encontrava. As pernas pareciam ser de um homem relativamente jovem – calças justas, sapatos bicudos e um andar firme. Fantasiou com o dono daquelas pernas, esperava que ele saísse pela porta da frente, para lhe ver o rosto.

O semáforo passou a verde e as buzinas tocaram em uníssono. Arrancou a fundo com o travão de mão por desengatar. tentou espreitá-lo pelo retrovisor, mas o chapéu que tinha sobre a cabeça tapava-lhe o rosto. Bolas! Num impulso virou à esquerda e de novo à esquerda e contornou rapidamente a praceta de forma a ir parar ao mesmo local. Estacionou. 

Estava empenhada em descobrir o rosto daquelas pernas. Voltar ao lugar do “crime” pareceu-lhe a melhor opção. Mais do que uma pueril curiosidade, aquelas pernas sem identidade, estimularam-na de forma surpreendente. Estava com a ansiedade típica de uma caçadora— a pensar e a agir depressa —para alcançar a sua presa. 

Esteve meia adormecida, durante aquele longo inverno. Ouviu e tocou, durante centenas de horas, todos os seus compositores barrocos preferidos. Mas aquilo que parecia estar a acontecer-lhe naquele momento era sinal que estava a acordar para a vida e pronta para se libertar dos braços de Morfeu. 

Aquele Libertango de Yo-Yo-Ma não lhe saía da cabeça e continuou a trauteá-lo, enquanto deu início à sua primeira obsessão do ano – encontrar aquele homem! Entrou desenfreada na barbearia, no café, em três restaurantes, numa drogaria, na pastelaria de esquina, numa pequena oficina, no talho, numa escola de línguas, na manicure, na mercearia e depois parou: olhou para todas as portas por onde tinha entrado, o fez um desenho mental de todos os seus movimentos.

Tudo se organizou no pensamento e todas as equações probabilísticas desenharam-se no espaço, como num filme de ficção científica. Preparava-se para atravessar a rua para o outro lado, em direção à primeira hipótese, quando ouviu a mesma melodia que trauteava. Entrava-lhe pelos ouvidos. Sendo uma mulher de sentidos muito apurados e com um ouvido “absoluto”, identificou rapidamente o som e a sua proveniência: porta vermelha entreaberta do outro lado da rua.

Correu afogueada até aquela porta e empurrou-a com um estrondo, dando de caras com o belo rosto das “suas” pernas. Ao entrar tropeçou e foi projetada pelo ar como se fosse as pétalas de um dente de leão, sempre que o vento sopra desenfreado. 

Inexplicavelmente, o tempo alterou-se e aquela mesma cena lentificou-se como se tratasse de um filme em slow motion. O seu corpo rodopiou pelo espaço, assumindo uma beleza extraordinária. De um salto, um outro corpo saltou pelo ar, fê-la girar sobre si e depois agarrou-a nos seus braços com a firmeza de um bailarino. E com a mesma agilidade com que se lançou no espaço, pousou-a no chão— corpo contra corpo, rosto contra rosto, boca contra boca— num encaixe perfeito e depois disse-lhe: it takes two for tango.

De pés no chão e já em tempo real respondeu: match





João Vasco Maio — ilustração

Escolha Musical — Yo-Yo Ma performing Piazzola: Libertango (from “”Soul of the Tango””). 1997  

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