CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Ana Aresta

Em segredo, disse: Sex Toy

O metro estava, como sempre, atrasado. Percorro a plataforma até à máquina de vending perto das escadas. Saco do cartão enquanto olho para a vitrine iluminada: A7 ou D5 – um destes dois é o que me apetece pela manhã. Carrego nos botões e pago, mas a roldana que segura a minha escolha pára na última volta. O dildo ficou encravado. Em desespero, começo a abanar a máquina. O metro aproxima-se. O vizinho do lado ajuda no processo. O dildo cai. É meu.

Num universo paralelo, imagino que os ditos brinquedos sexuais existem assim disponíveis à luz do dia. Tal como snacks. Talvez seja exagero andarem por aí espalhados no metropolitano, mas vá: disponíveis para lá das vergonhas, usos em segredo ou “depravações”.

A democratização saudável e positiva dos sex toys ainda está longe deste paradigma – pelo menos mais longe do que seria de desejar. E foram várias as notícias que associaram a sua maior procura em tempos de pandemia a uma diminuição da libido, a uma solução de último recurso para pessoas solteiras que deixaram de ter oportunidades para encontros, ou a um contágio negativo da esfera de intimidade dentro das relações.

Ainda escassa, por sua vez, é a narrativa inversa – a de que os brinquedos sexuais podem ser perfeitamente partilhados e integrados no exercício saudável da vida sexual, plena ou não em libido, a sós ou em usufruto de vários corpos, de todos os tipos de sexos, géneros e zonas erógenas.

Sinto que os silêncios que implementamos nos nossos círculos de relação pessoal, das amizades às relações sexuais e/ou amorosas contribuem ativamente para esta invisibilidade ou efeito negativo. As amarras de uma sociedade que ainda oprime os nossos corpos feministas vão prevalecendo por aí, vigilantes, a pressionar bem forte no domínio da culpa, do medo olhar alheio e no aperto ansioso do bom comportamento.

Para quem se identifica com este universo paralelo, partilho o desabafo: a vergonha em falarmos ou atrevermo-nos a experimentar integrar nas nossas vidas estes e outros quaisquer adicionais do belo gozo não traz só prejuízos ao mercado. Contribui, sim, para um possível mas bem danoso afastamento do tão desejado caminho para o empoderamento dos nossos corpos. Esses corpos, os nossos: que merecem ser objeto consentido de todo o prazer.


Ana Aresta — ativista, lésbica e feminista

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