crónica —— o lugar do outro

Bernardo Mendonça

Um punho cheio de amor, outro cheio de ódio

Conheci o Marco Moreira em 2011. Estava condenado por homicídio e a cumprir uma pena no Linhó há 12 anos. A vida não é feita de bons e maus e um só homem pode ser capaz do melhor e do pior. E, como bem sabemos, as circunstâncias podem embalar um corpo para o abismo. Um abismo que se podia ler com detalhe no seu corpo fora da lei. 

Quando me foi apresentado na prisão, Marco era todo músculos, chagas, amor, humor e raiva. Decifrar o que lhe ia na pele era como folhear um livro denso, rico e empolgante, com inúmeras páginas ilustradas de uma vida de crime, castigo e redenção. Cada imagem à superfície tinha uma grande história. Por vezes, várias. Em camadas. E, por elas, ora sentíamos repulsa ora fascínio. Como acontece com os anti-heróis da literatura e do cinema.

Uma bússola a arder, alguns cifrões de escudos, dados e cartas foram os primeiros desenhos que fez na sua pele, aos 16 anos. Traduziam o seu universo marginal. Nessa altura, Marco já era formado pela escola da rua. Vendia droga no problemático bairro da Amoreira, na Moita, andava armado, roubava motos, pintava-as para as revender e divertia-se a jogar à batota nas esquinas. Os cifrões no braço esquerdo traduzem os milhares que lhe passaram pelas mãos. E o poder que alcançara no bairro. “Eu era patrão. Dominava a minha zona e tinha muito dinheiro no bolso. Chegámos a sacar 35 mil contos num assalto a uma casa de penhores.” 

Marco aprendera a endurecer logo aos 4 anos, quando se viu obrigado a dormir ao relento, “dentro de contentores”, para escapar às tareias do pai alcoólico, que arreava na mãe e o espancava com a mangueira do gás. Passou a viver com a avó, mas não por muito tempo, porque aos 9 anos foge para Lisboa, sem destino certo.

Marco cresceu assim. Ao deus-dará. Aprendeu a roubar motos com rapazes mais velhos e a safar-se na vida. Com jeito para o desenho, começa a ser requisitado por amigos mais velhos para pintar motos roubadas. “De uma maneira ou de outra, caía sempre dinheiro no meu bolso.” Aos 16 anos é detido por furto de veículos na estação de comboios do Barreiro. Esteve um ano e meio na cadeia do Montijo. Foi lá que um indivíduo conhecido como “O Dentista” — pelo massacre que era estar nas mãos dele — lhe desenhou um dragão no ombro esquerdo, símbolo de conhecimento. “Eu era um puto e sabia demasiado.” De tal maneira que dois meses depois de estar preso foge da prisão, abrindo um buraco nas telhas do estabelecimento. Quinhentos metros mais à frente apanha uma moto e pisga-se para longe. Esteve dois meses fugido. Passa por Espanha e Marrocos.

Aqui esteve um dia a engolir bolotas de haxixe embrulhadas em saquinhos, mas quando passa pela polícia na fronteira entrega-se. Em maio de 1999, com 18 anos, sai com o perdão presidencial de Jorge Sampaio. Regressa às más companhias e aos assaltos. Num dos episódios, o grupo surpreendeu um guarda-noturno; a situação descontrolou-se e o que era para ser uns quantos sopapos resultou numa fratura na traqueia do homem que acabou por morrer. Marco acaba por ser detido dias depois. 

Acusado de homicídio, é condenado a 18 anos de prisão. Quinze dias mais tarde, nasce a sua filha, Luana. Por isso, tatuou na sua coxa direita uma grande cruz com o seu nome ao alto. “Ela é sagrada.” Pouco depois de entrar na prisão, um colega tatuou-lhe no peito a face de um lobo, uma referência à alcunha de “Lobo Mau” que ganhou na prisão por fazer desaparecer os objetos de outros presos sem deixar rasto. E com dotes de artista. “Sempre houve furtos dentro da cadeia. Mas, pensei, ladrão sou eu. E passei a roubar descaradamente na cara dos outros reclusos. Nunca me apanharam”, conta.

A páginas tantas, como tinha bom traço e mão firme, passou a tatuar-se a si próprio e aos colegas. Cobrava entre três e cinco maços de tabaco por cada trabalho feito com a máquina artesanal que escondia na cela. Em 2001, quando faleceu a sua avó, prestou-lhe tributo no antebraço com uma cruz onde escreveu: “Maria de Lourdes, rest in peace” [descansa em paz]. E adicionou as palavras: “Only God can judge me” [só Deus me poderá julgar].


“Não me conformo por ter sido julgado daquela maneira pelo Fernando Negrão. A minha condenação foi injusta. Estive no meio da confusão, mas não matei ninguém.” Foi movido pela ira que desenhou dois diabos no corpo. Um no tornozelo direito, a empunhar uma forquilha, e outro mais tosco nas costas, feito por um colega, com o código penal e o número da besta, 666. “Eu era um diabo sem nada a perder. Com uma pena de 18 anos, estava desorientado. Mas agora esse diabo reformou-se.” 

Também nas costas tem um pistoleiro com “um grande canhão”, a reforçar a sua identidade de fora da lei. Qual Robin Wood, garante que roubou “todos os traficantes” da sua zona antes de ser preso. “Porque haveria de roubar as pessoas que não têm nada?” Surpreendia-os à hora do jantar, quando estavam à mesa com a família. “Se não me dissessem onde estava o dinheiro e a droga, apontava a arma aos filhos. E aí chibavam-se logo.” 

Anos depois, escreveu no abdómen musculado duas frases biográficas que são comuns e moda nos corpos de muitos presidiários: “Outlaw” [Fora da Lei] e “Rebel Soul” (Alma Rebelde). Carismático e sedutor, a sua fama (e proveito) mulherengo também foi registada no antebraço com a seguinte frase: “Babe, i’m for real!” (Querida, sou real!).

Os dois palhaços que tatuou nos bíceps são parte da sua identidade e representam a sua adoração pelo Chapitô e as artes circenses, onde chegou a receber formação de ‘clown’, malabarismo e capoeira, quando a dado momento da sua infância o tribunal lhe destinou um centro de recuperação para menores. 

E até um dos dias mais felizes da sua vida está marcado na sua perna esquerda: o seu casamento, em 2009, realizado na prisão. Nesse dia, Marco vestiu-se de branco, com roupa de linho. “Estava com estilo de menino da praia.” Mas sem liberdade precária à vista, o casamento ruiu. Apesar disso, chegou a ter com a mulher relações sexuais na sala de visitas. Sexo intenso nas barbas dos guardas. O truque era sentar-se na mesa do canto, debaixo da câmara de vigilância e longe dos olhares do segurança de serviço. “Vem de saia, Maria, que hoje a gente conversa”, avisava com a voz rouca e sussurrada ao telefone. Ele sabia bem o efeito excitante que essa mensagem provocava na sua companheira. Ela apenas gemia e cumpria. E, por momentos, o sexo não era só tesão, mas libertação. 

Quando conheci o Marco, o Anti Cristo, já ele tinha em mente a próxima tatuagem: “Uma pomba a esvoaçar através de grades partidas.” A pensar na liberdade…



João Vasco Maio — ilustração

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