CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Helena Ales Pereira

Seja feita a minha vontade

“So here I am speaking out for all my ladies in the house 

We will not stop the fight into we hold our rights 

For women of every color, size, shape, sexual identity, and place in this world 

And that is the truth of being a girl” 

The truth of being a girl, by Aija Mayrock 


Há uns anos, um namorado começou a tocar-me de forma mais brusca – tínhamos acabado de discutir e ainda estávamos na ressaca da discussão – e eu rejeitei-o. Ele insistiu no toque mais agressivo e eu continuei a rejeitar. Ele continuou e eu rejeitei, novamente. O que poderia ser um jogo de sedução passou a um jogo forçado. Os abraços prendiam-me e eu tentava soltar-me, apesar da quase impossibilidade para me libertar – ele tinha 1,80 e 90 quilos de peso. A insistência acabou por me levar a ter relações sexuais que não queria. Durante todo o tempo que ele insistia, afirmei várias vezes que não queria, para ele parar. Mas talvez por achar que a relação justificava “tudo”, ele não parou. E eu deixei-me ir, desisti de resistir… 

Eu deixei-me ir, contra a minha vontade, e não sei explicar porquê. Passados tantos anos sobre o que se passou, continuo sem saber qual a verdadeira razão para não o ter parado. Talvez o facto de ser uma relação abusiva, talvez por estar num momento mais vulnerável, com a auto-estima em baixo. Algum tempo depois daquele momento, confrontei-o com o que se tinha passado, e ele ficou furioso, com a possibilidade de ter havido um abuso, mas mais com a minha acusação.  

Em conversas com muitas mulheres, sempre percebi esta “cedência” delas, como algo aceitável, até normal, nas relações. “Mesmo que não tenha vontade, faço, porque quero que ele esteja feliz”, ou “quando estás numa relação, fazes coisas que não tens vontade, faz parte” ou “faço mesmo que não queira, porque não quero que ele vá procurar fora de casa (??)”. Comecei a perceber que a normalização de um ato sexual não-consentido era frequente, porque ele assentava sobretudo na premissa que numa relação tudo era, é, permitido.  

Nesta linha tão ténue entre o que é aceitável e não é, talvez devêssemos concentrarmo-nos numa regra muito simples: a da vontade. Se não quero, não faço. Se não estou com essa disposição, digo que não. E esta razão tem de bastar. Ela não tem de vir acompanhada por “uma dor de cabeça”, por “desconforto das dores menstruais”, porque “os filhos estão a chorar” ou porque “amanhã tenho de acordar cedo”. Se o diálogo é fundamental numa relação, os silêncios também têm ser compreendidos. E respeitados. 

Num papel de submissão incutido ao longo dos anos, a mulher – de diferentes gerações – ainda continua a colocar de lado a sua própria vontade em prol do bem de uma relação. Mas que relação é possível construir quando a vontade de uma das pessoas não é considerada em algo tão íntimo como o seu próprio corpo?  

Sempre que se fala sobre abusos sexuais, ou de violações, e se tenta de alguma forma minimizar ou até justificar como um ato de sedução, há uma coisa que parecemos esquecer. Existe ali uma pessoa que está a ser forçada a fazer uma coisa que não quer. Vamos esquecer as convenções sociais – já sabemos onde está o ónus da culpa – vamos até esquecer aquele silêncio, aquele sorriso tímido, que parece um “nim”, vamos até esquecer que a pessoa parece estar a ser simpática, com o reforço na palavra “parece”. Se há uma coisa que é comum a todas estas situações é a vontade da mulher. E nenhuma mulher do mundo, absolutamente nenhuma, quererá ceder a uma coisa que não quer, sobretudo quando se fala de usar o seu próprio corpo.  

Não é possível haver leituras dúbias sobre aquilo que para uns é abuso sexual e para outros é tido como um jogo de sedução. Se existem dúvidas sobre o que é, definitivamente não se trata de jogos de sedução. Ponto final. Porque o abuso sexual não é definido por aquilo que “parece”, ele é definido pelo que não é dito, pelo medo, pelo constrangimento, pelo desconforto, pela vergonha, pelo medo e, sobretudo, pela vontade! Se uma mulher quer estar com um homem, ela está. Se uma mulher quer ter relações com um homem, ela tem. Se ela quer entrar num jogo de sedução, ela entra. Mas serão poucas as mulheres que, vendo-se num “jogo de sedução” que não querem, serão diretas o suficiente para o parar. Por mil e uma razões, além das já referidas, todas incutidas ao longo de séculos, de sociedades onde a vontade masculina tem prevalecido sempre. 

Para muitas pessoas, sejam homens ou mulheres, aquele namorado expressou a sua vontade e se eu não quisesse, deveria ter feito alguma coisa. Para eles não há dúvidas que o facto de ter tido relações sexuais que não queria, foi culpa minha. A minha vontade e a minha recusa física e verbal no momento são irrelevantes. Eu cedi, logo eu quis. Para estas mulheres e estes homens, nenhuma mulher será inteiramente dona do seu próprio corpo. Para estas mulheres e homens, existem sempre nuances. Existem nuances em casos de abusos sexuais, existem nuances em casos de violação, existem nuances em casos de relações sexuais forçadas, dentro de uma relação. Para estas pessoas, a única coisa que não existe é a vontade de uma mulher. 



Helena Ales Pereira — jornalista

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