CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Paulo Farinha

Isso também já te aconteceu na cama?

Devíamos falar mais sobre sexo! Do que gostamos. Do que não gostamos. Do que gostaríamos. Do que desejamos. Do que tememos. Devíamos falar mais sobre o nosso sexo. 

Claro que há assuntos e assuntos. E alguns devem ser abordados com um sexólogo. Ou um psicólogo. Ou um urologista. Ou um ginecologista. Cada um saberá que tema levar para que fórum, da falta de libido à disfunção eréctil, do desejo sexual hipoativo à aversão, da perturbação da excitação à perturbação do orgasmo, do vaginismo à secura vaginal, da disfunção ejaculatória à dispareunia (dor). Podia continuar a lista de patologias – copiada do site da Associação para o Planeamento da Família depois de ver que não me safava no site da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – mas já perceberam o ponto: há temas que devíamos abordar com um profissional de saúde, num contexto clínico. E assim falar abertamente de sintomas e preocupações, para tirar dúvidas e pedir diagnósticos. 

Mas, infelizmente, o estigma em torno da intimidade continua a fechar as portas dos consultórios a sete chaves, fazendo-nos acreditar que falar sobre sexo com um médico é como pedir-lhe ajuda. E pedir ajuda é sinal de fraqueza. E, no que a sexo diz respeito, já se sabe, ou não temos fraquezas ou resolvemo-las sozinhos.

Ora, é precisamente por isso – ou também é por isso – que devíamos incluir outra categoria na lista de pessoas a quem podemos falar: os amigos. Devíamos falar com os nossos amigos sobre sexo. Falar com as pessoas com quem desabafamos. A quem recorremos para carpir mágoas ou partilhar alegrias. Sim, desabafar com os amigos sobre sexo. Sobre o nosso sexo. Sobre o sexo deles. Dizer o que nos vai na alma, dar conta das angústias, das dores, das aflições, do que corre bem e do que corre mal. E ouvir as dores dos outros. Estar lá para os outros. 

Se o fizéssemos mais vezes, com menos reservas, talvez concluíssemos que a nossa vida íntima não é assim tão diferente da dos outros. E que não estamos tão sozinhos como podemos pensar. E que, tal como os assuntos da alcova não são sempre um mar de rosas para nós, também não o são para os que nos rodeiam.

Não é fácil falar destas coisas sem levar o rótulo de desbocado ou deixar os amigos incomodados. Poucos conseguem falar, nem todos estão dispostos a ouvir. E há também a salvaguarda da privacidade das pessoas com quem estamos e cuja intimidade fica exposta, claro. Falar com o nosso melhor amigo sobre o que corre menos bem na nossa cama é também falar sobre a nossa mulher ou o nosso marido. Quando nos despimos de preconceitos perante alguém em quem confiamos, estamos também a despir a pessoa com quem dormimos – e ela pode não achar muita piada.

Mas, vencida a barreira da confidencialidade, essa salvaguarda de que os temas abordados na mesa do café não vão sair da mesa do café, conversar sobre a cama pode ser libertador. Pode ser uma forma de percebermos que há mais pessoas – que conhecemos e que nos conhecem – que têm as mesmas dúvidas que nós temos. Os mesmos dilemas. As mesmas preocupações. Cada um tem os seus medos e os seus esqueletos no armário, e o que resulta num caso pode não resultar noutro, mas somos capazes de ficar admirados sobre o território comum de intimidade em que tanta gente se move, sem saber que os outros também por lá andam.  

Para muitos homens – e eu não sou exceção – falar de sexo com os amigos é coisa que se faz no WhatsApp, onde trocamos piadas de caserna e javardice que enche a memória do telemóvel.  Este é o sexo dos outros. Da ficção. O sexo das piadas. Muito diferente do nosso sexo. O sexo da vida real, que é território sagrado e tema tabu. 

Mas não precisa de ser. Falar das coisas não as torna públicas e falar sobre o que nos preocupa ou o que desejamos não nos torna mais vulneráveis. Apenas mais humanos. E menos sozinhos.



Paulo Farinha — jornalista

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