AS PARTES PERTURBADORAS

Cartas para a minha filha

Cláudia Lucas Chéu

16.05.2021

«As lésbicas também fazem sexo, mãe?» Lançaste a bomba enquanto subíamos a rua íngreme até à nossa casa, vinha eu carregada do supermercado que nem um jumento com os alforges atestados de comida. Resfoleguei. Desta vez não te ia mentir como fiz em relação ao sexo anal, mas tive de pousar os sacos de compras no chão para ganhar fôlego. «Fazem, sim, filha. Os homossexuais, homens e mulheres, também fazem sexo, claro.» Olhaste de esguelha para mim, com um ar desconfiado. «Mas como? É preciso a pénis e a vagina para se fazer sexo.» Acho mesmo graça que te refiras ao pénis no feminino, já te corrigi várias vezes mas tens tendência a dizê-lo dessa maneira. Tornei a emendar-te: «Diz-se o pénis, é masculino.» Fizeste uma careta e riste-te de ti própria, e eu continuei com a explicação possível sobre sexo entre lésbicas. «Não são necessários o pénis e a vagina para se fazer sexo.» «Ai não? Então mas não é preciso a semente que sai do pénis para fazer um bebé?» Achei enternecedor por demais o teu nível de ingenuidade. Agarrei nos sacos, pronta para prosseguirmos de regresso a casa, e continuei a explicar-te enquanto caminhávamos. «Fazer sexo e procriar — ou fazer filhos, como tu dizes — são coisas diferentes. As pessoas fazem sexo para terem prazer, para darem e receberem amor e carinho e muitas outras coisas que às vezes nem sabemos nomear, e também o fazem para terem bebés, sim, mas não é obrigatório que assim seja.» Vi na tua cara que nunca te tinha passado tal coisa pela cabeça. Deste alguns passos em silêncio. «Então, portanto, as lésbicas também fazem sexo.» Ficaste novamente inquieta, enquanto caminhavas ao meu lado, fresca quem nem uma alface a subir a rua enquanto eu vinha com os bofes de fora de cansaço. «Mas fazer sexo sem o pénis e a vagina é fazer o quê? O que é que fazem as lésbicas quando fazem sexo?» Voltei a resfolegar, mas desta vez não pousei os sacos, continuei firme a carregá-los e a tentar raciocinar ao mesmo tempo. Por um lado, não conseguia dizer-te exactamente como são as coisas e o que pode acontecer numa relação sexual entre lésbicas, seria demasiado gráfico e talvez perturbador; por outro lado, queria mesmo dizer-te mais alguma coisa sobre este assunto. «As lésbicas fazem sexo e amor como os heterossexuais. Também se despem, acariciam os corpos, beijam-se, têm prazer e são felizes por estarem juntas na mesma cama.» Não fui capaz de te dar mais pormenores e tu pareceste esclarecida com a informação que te dei. Achei-te muito crescida a subires a rua ao meu lado, com a tua mochila cor-de-rosa aos ombros. Estávamos mesmo a chegar à porta do prédio, e eu deserta por entrar em casa e pousar os sacos, quando resolveste pedir mais um esclarecimento: «Ó mãe, então tu e a tua namorada também fazem sexo?» Dirigido assim tão frontalmente deixou-me apertada ao nível do pudor, mas tive de dizer a verdade. Sabendo que provavelmente te passariam pela cabeça as imagens que tinha acabado de te explicar, mas neste caso com a tua mãe. Fez-me confusão, porém não me demoveu de ser honesta. Pensei que se as tuas perguntas fossem em relação a um namorado também te não mentiria. Portanto, o melhor seria assumir e pronto. Até porque há que dignificar a pessoa que tenho ao meu lado perante os teus olhos e os de toda a gente. «Também fazemos, sim, filha. Como todos os casais. E fazemo-lo porque sentimos amor uma pela outra.» Pareceste, por fim, satisfeita com a minha resposta e começaste a falar de um jogo de computador em que tens de construir a tua própria casa, e entrámos finalmente no nosso humilde lar. Pude descarregar a carga do supermercado na cozinha. Senti-me bem por não te ter mentido, senti-me competente nesta profissão exigente e a tempo inteiro chamada mãe.


Cláudia Lucas Chéu — escritora, poeta, dramaturga

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