crónica —— dentro de mim

Marta Crawford

O sonho encheu a minha noite

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Naquele dia e naquela noite tudo se confundiu. Adormeceu, como sempre, a ouvir as suas músicas favoritas no spotify. O que mais gostava, era fantasiar e, por isso, deitava-se sempre de barriga para baixo, um pouco mais cedo, para poder fazê-lo acordada até lhe chegar o sono. Sabia que assim, obrigava o seu cérebro a expandir-se durante toda a noite, sem limites. Há muito anos que fazia este treino e, cada vez, sonhava melhor acordada e, de forma extraordinária, quando estava dormir. 

Na mesa de cabeceira, o seu bloco com já poucas folhas brancas era rabiscado rapidamente assim que despertava de um sonho, não fosse o sono voltar ou a memória falhar. Um dia, quando fosse mais velha, escreveria um livro e partilhá-lo-ia com os seus netos e bisnetos. Como diria a sua poeta favorita, Adélia Prado, o sonho encheu a noite, extravasou pro meu dia, encheu minha vida e é dele que eu vou viver porque sonho não morre.

Mas com o dia, as memórias dos seus sonhos desapareciam ou transformavam-se. Sabia que não podia guardá-los por muito tempo – afinal, não é suposto aprisioná-los para sempre na mente. 

DESPERTOU com um orgasmo sublime. Não era a primeira vez. Mas nunca tinha sonhado com uma mulher. O seu corpo roçava-se no dela, a pele era clara e as mamas, de tamanho médio, muito firmes. As aréolas eram rosadas de um tom bastante mais suave do que as suas e os mamilos, duros, pareciam duas pérolas brilhantes. Mamilos eretos contra mamilos eretos, mamas contra mamas, num movimento profundamente erótico. A excitação tinha crescido de forma gradual: primeiro, com as carícias suaves sobre o seu corpo, feitas pelas pontas dos dedos; depois, com a língua que provocava uma ligeira e interessante dor na vulva. O seu corpo abriu-se completamente para conseguir sentir aquela tensão prazerosa, provavelmente gerada por aquele intumescimento tão visceral. Sentada como se fosse uma rã, agarrava aquele corpo feminino e felino que se roçava no dela com movimentos certeiros. Nesse preciso instante, brotou daquela vulva uma espécie de serpente emplumada que a penetrou, como se se tratasse de uma língua de um anfíbio a apanhar um inseto voador. Foi o auge de toda aquela excitação!

Ao contrário do que lhe acontecia sempre, teimou em não sair daquele sonho e entregar-se ao dia. Sentia-se refém das memórias daquela noite. 

Ao tirar o carro do estacionamento cruzou-se com a vizinha do terceiro andar que lhe sorriu. Estranhou. Não conhecia as pessoas que viviam no seu prédio. Os seus horários eram claramente diferentes dos da maioria dos inquilinos. 

Ao chegar a casa ao fim do dia, os pássaros já chilreavam nas árvores de folhas verdes que circundavam a sua morada. Parecia que lhe davam as boas noites. Com a cabeça cheia de mil tarefas, reuniões, papéis e protocolos, atirou-se para a banheira de imersão. Água quente, música bem alta, muito vapor na casa de banho. Equação perfeita para descontrair.

ADORMECEU com umas mãos quentes que a acariciavam e uns lábios que lhe chupavam os mamilos. O seu corpo voltou a entesar…



João Vasco Maio — ilustração

The Swan · Camille Saint-Saens · Clara Rockmore, Theremin · Nadia Reisenberg, Piano Music In and On The Air

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