CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Marco Gonçalves

Sexo & Género

O sexo é Muito mais que sexo. Tão original e de uma complexidade monumental. Ao mesmo tempo tão obvio.

Digo muitas vezes que a maior parte das questões sexuais não são sexuais. E que não há saúde sexual sem saúde mental, e vice-versa. Digo isto porque sou psiquiatra, porque tenho competência em Sexologia Clínica. 

Mas também porque sou casado com um homem. Porque fui casado com uma mulher. Porque sou filho, sou tio, sou homem, sou pessoa, sou humano. Tenho pais, tenho família, tenho amigos, tenho colegas de trabalho. E tenho vida, tenho circunstância, tenho desejo, tenho fallhas.

E muito mais. Gosto de sexo, embora nem sempre. Gosto de pele, de cérebro, de género, de diferentes maneiras, e de gente. Enfim, uma infinidade de tantas coisas que não são coisas, não são só corpo e não são só mente. São um todo e sou um todo, como toda a gente.

Tantos preliminares para chegar à minha ideia nuclear. Mas desenganemo-nos. Não existem preliminares. Tudo é sexo. Desde o cheiro, da primavera, ao cigarro, pós-orgásmico, se houver, e se é que tudo acaba aí. E nem vou falar de genitais, de sexos, que disso achamos que sabemos muito, muito pouco também.

Falo do coito, sem esquecer do não-falo, do menos falado, da Vulva, do (in)visível.

O sexo na nossa cabeça, por várias razões foi formatado, e ficou reduzido ao coito, à penetração pénis-vagina, ao modelo heterocêntrico, por mais que tentemos e consigamos, desconstruí-lo, ou não. 

Preocupa-me a subjugação do sexo ao género, ao coito homem-mulher. Defendo, agora, a separação do sexo e do género, mesmo que depois venha tudo junto. Não vou falar de identidades, de homem, de mulher, de não-binário. 

Estou a falar de papéis, de papéis de género, masculinos e femininos. Daqueles que nos aprisionam depois aos papéis sexuais e nos desempenhos, que nos oprimem e subjugam. E neste ponto, tudo o que atribuímos a determinado género e que nos afasta da satisfação, sexual digamos, por medo e insegurança, por questões de género.

Digo, muitas vezes também, que a boca, os genitais e o ânus não têm orientação sexual, nem de género. E este é um exemplo redutor e que não considera, intencionalmente, a autodeterminação da pessoa e a sua alegada orientação sexual. Os órgãos e os comportamentos não têm orientação sexual mas podem ter uma atribuição de género.

O prazer, dito sexual, devia ou podia ser mais livre, com menos carga dos julgamentos que inevitavelmente fazemos e nos fazem, e nos afasta daquilo que importa, para nós. Aproximemo-nos mais do prazer, a sós ou a mais, de uma forma sentida e igualmente consentida.

Como diria aquele sábio senhor: talvez valha a pena pensar nisto. Porque o sexo é muito mais que género, e Muito mais que sexo.


Marco Gonçalves — Médico

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