CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Isabela Figueiredo

A falha humana

Não alimentem esperança. Não há heróis. Não valemos nada. A vida é um saco de histórias vulgares e ridículas. 

Eu não gostava dele. Antes de termos começado a trabalhar à distância, eu sempre dissera, na redação, a quem quisesse ouvir, que o Miguel tinha um transtorno narcisista de personalidade, o que explicava a forma sobranceira como tentava dominar-nos. Nas reuniões, o seu sorriso nunca abria. No entanto, os olhos, quando não fugia com o olhar, não mostravam malevolência, mas insegurança. Devia ser uma fragilidade que vinha da infância. A mãe não o tinha acarinhado. O pai era violento. 

Nunca receei que a minha opinião pudesse chegar aos seus ouvidos. Contava com isso. Há denunciantes gratuitos a cada esquina. Devemos usar os seus serviços em nosso favor. Temos alguma saída a não ser chafurdar na falha humana para a conhecer e aprender como sair ilesos?  

Entre nós mantinha-se um silêncio não isento de significado. Eu não tinha medo dele: ele não me fazia frente. Ele tinha muito ego. Eu também.  

Mas veio o coronazinho, que nos enfiou em casa, local a partir do qual trabalhamos há um ano. Na nossa profissão, trabalhar implica estar sentado frente ao computador. A redação realiza duas reuniões semanais, por videoconferência. Nessas alturas, vejo Miguel sentado numa poltrona negra, com fundo de parede branca não decorada. Ele bem visível. O corpo todo. Não há mais nada para ver na sua janelinha. Levanta-se a cada quarto de hora. Sai do campo de visão e regressa rapidamente. Irá beber refresco? 

É muito tentador vistoriar os outros quando não estamos na sua presença. Não sabem que estão a ser olhados. Podemos examiná-los meticulosamente. Reparo que usa roupa básica para trabalhar on-line. Apenas camiseta curta sobre calça jeans de cintura baixa. Quando se levanta, a visão da pélvis morena traçada por pelos curtos subindo do púbis, inunda completamente o quadrado de ecrã. Os momentos altos da minha reunião são esses em que posso contemplar cinco centímetros de baixo ventre que a roupa não esconde, a barriguinha de pele húmida, atravessada por veias salientes cujo destino desejo seguir.  Não sei se o Miguel é casado nem onde se situa a sua casa, mas quando a reunião termina, desligo o aplicativo e imagino-me percorrendo o bairro e tocando à sua campainha. Entro no edifício. Subo no elevador. Ele abre a porta. Fita-me sem surpresa com os olhos inseguros da infância. Aqueles que ainda pertencem lá atrás. Ainda lavados. Digo-lhe, “não diga nada, por favor”. Encosto-o à parede da entrada com o meu corpo e espalmo as mãos na pele da sua barriga, por debaixo da camiseta. O coração bate ali. Enfio a mão direita por dentro dos seus jeans e sussurro-lhe, “você também deseja que o trabalho em casa não tenha vindo para ficar ou tem opinião diferente?”


Isabela Figueiredo — Escritora

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