AS PARTES PERTURBADORAS

Cartas para a minha filha

Cláudia Lucas Chéu

09.05.2021

Tenho esparguete com tomate e salsichas ao lume e o portátil pousado na bancada, mesmo aqui ao lado do fogão. Oiço a tua voz e os barulhos estridentes do jogo de computador, vindos do teu quarto. Conversas com os teus colegas da escola, estão novamente juntos on-line, na mesma realidade paralela que partilham através dos ecrãs. Pensando bem, o que está a acontecer no teu quarto é próximo daquilo que eu imaginava em criança que seria o futuro, só faltam as naves a sobrevoar a janela da cozinha. Posso escrever-te neste momento, usando o tempo útil entre o teu jogo e a cozedura da massa; gosto de fazer várias coisas em simultâneo.


Esta semana, o momento alto das nossas conversas foi sobre a derrota e o satisfatório. Como todas as crianças, não sabes lidar com a frustração, e aprendeste a usar a palavra «satisfatório» associando-a às coisas que nos dão prazer, como, por exemplo, cortar esponjinhas com uma tesoura. Resumindo, és uma líder e não suportas que alguém tome o lugar que desejas, e com nove anos, percebe-se bem que és uma hedonista nata: só gostas de fazer coisas que te dão prazer. Quando te mando tomar banho e vestir o pijama antes do jantar, a resposta é sempre um rotundo «não», como se tivesses oportunidade de contornar isso. Não queres ir porque dá trabalho despir a roupa e entrar na banheira, sair do banho e apanhar frio enquanto o corpo está molhado, e ter de vestir o pijama e secar o cabelo; achas que é uma trabalheira.


Quando tinhas três anos e morávamos numa casa grande e melhor do que esta, disseste-me algo surpreendente, precisamente porque te estava a explicar que tinhas de fazer uma coisa que não querias: «eu gostava de viver num mundo sem razões, mãe.» Tinhas três anos e, como qualquer mãe, pasmei com o raciocínio límpido da criança que trouxe ao mundo. Perguntei-te porquê. «Para não ter de ouvir as razões das pessoas. E toda a gente podia fazer o que lhes apetecesse.» Sei que o disseste assim ipis verbis porque o registei; muitos dos nossos diálogos estão registados no meu bloco de notas do telemóvel há vários anos.


Eu sei que tu não és um prodígio – e ainda bem, porque as crianças prodigiosas vivem sem passar pela infância –, sei que és uma menina inteligente e curiosa como muitas meninas. Mas acho-te lúcida e aprendo coisas contigo. É claro que também me dás cabo da paciência, nunca conheci pessoa tão casmurra e desobediente. Agora mesmo, que o jantar está pronto e cheira a comida feita no tacho, lutas com o facto de ser imperativo desligar o jogo. Não há uma única vez que obedeças à primeira, e suplicas aos gritos: «são só mais cinco minutos, mãe.» Larguei o meu computador e fui até ao quarto para te obrigar a desligar a máquina mais viciante de todas, o sacana do teu computador. E contas-me que tens de denunciar um utilizador do jogo porque usou palavrões no chat e perguntou se «alguém queria ter sexo». Fico doente. Supostamente, trata-se de um jogo para miúdos. Expliquei-te que não podes voltar a jogar àquilo.


«Mas mãe, o jogo codifica as palavras, nem dá bem para ler. Ele escreveu marretar, eu é que percebi.» Marretar? Morri. Denunciámo-lo, claro, e tu não voltarás a entrar naquele jogo. Ainda bem que me contas tudo e que tens noção do que está errado. Senti que me saiu cara a escrita deste texto. Achei que podia aproveitar o tempo da massa ao lume e a brincadeira, supostamente inofensiva, ao computador. Infelizmente, o sexo é o maior terror, um monstro que está sempre iminente na internet e que mete medo aos pais. É preciso um policiamento extenuante. Nada de hedonismo para os pais, só razões que nos levam a pensar nos tempos em que vivemos. Felizmente, querida filha, existem razões e nem todos podemos fazer o que nos apetece; tenho a certeza de que, não tarda, concordarás comigo sobre este assunto.



Cláudia Lucas Chéu — escritora, poeta, dramaturga

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