CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Aldina Duarte

ILUSÃO versus ESPERANÇA

Era tudo o que ela sonhava: corpo esguio, olhos negros luzentes, cabelo rebelde da mesma cor, boca delineada, mãos grandes. Andarem de braço dado pelas ruas onde cresceu, para que todos os vissem. Perguntei-lhe por que precisava que fossem vistos. Achou a pergunta estapafúrdia, não levou a sério, e não respondeu. Mais tarde, soube que estava com uma depressão causada por um amor não correspondido, aliás, uma ilusão pura: nunca se viram fora do café do costume, nunca ouviram o som de uma conversa que fosse além das frases costumeiras da dita boa educação, de tomarem o café da manhã, todos os dias, anos a fio, lado a lado – mas sentados ao balcão, dizia -, sempre a falarem sobre as suas profissões com os donos e empregados do estabelecimento. Um dia diz-lhe que vai mudar de cidade, e nunca mais apareceu. A ilusão confunde aparência com realidade, faz acreditar que temos o poder de mudar os outros e as suas vidas, independentemente da sua vontade própria. Não questionamos os nossos equívocos. Nunca estamos errados. Só acreditamos na visão que temos dos outros e da vida. Tornamo-nos falsos ilusionistas inconscientes dos seus truques. Pelo contrário, alguém que vê como possível a realização daquilo que deseja, que confia numa coisa boa, que espera pelo regresso de quem está longe numa missão arriscada, diz-se que tem esperança. Interrompo o meu pensamento: qual é a fronteira entre a ilusão e a esperança? Há um desconforto. Atrevo-me a escrever o que penso, não gostando do que sinto, mas a verdade é que a ilusão amorosa aproxima-se mais do que considero uma relação de poder, pois a exaltação do outro acaba por ser uma vitória pessoal consumada e o seu reconhecimento social ou familiar. Acredito que um coração endurecido é mais atreito a ilusões. A esperança, essa, nunca abdica da inteligência e da coragem, enquanto exercício; na relação com o outro e com a própria vida é uma âncora, não por acaso é o símbolo cristão da famosa tríade “Fé, esperança e caridade”, matriz essa a que, sendo crentes ou ateus, nós ocidentais dificilmente seremos totalmente alheios. É uma evidência que há milhares e milhares de pessoas que arriscam desinteressadamente em nome de valores mais altos, sem compensações visíveis, à margem de qualquer religião, porque têm esperança num mundo melhor e na evolução do ser humano. Pergunto-me: viverá o amor sem a esperança? E existe a esperança sem amor?


Aldina Duarte — fadista e letrista

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