CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Joana Almeida

Diversidade de Género entre os mais novos

Por vezes apercebo-me que estou crescida, que o envelhecimento deve ser isto, sentir o tempo a passar sem saber bem como ele acontece e por onde passou. Quando penso sobre a diversidade sexual e de género na infância e adolescência hoje, as experiências das pessoas envolvidas são muito diferentes de quando comecei como voluntária em saúde sexual e reprodutiva, quando estudei na Universidade de Coimbra no virar do século, quando comecei a trabalhar como psicóloga e formadora em questões da sexualidade humana. 

Espanta-me a evolução social, orgulho-me das conquistas que as comunidades LGBTQI+ e os activistas conseguiram, regozijo-me das mudanças nas várias áreas do saber, da sexologia, da psicologia, da medicina, ou da educação. 

Lembro-me em 2013 de uma conversa entre colegas, em que eu contava como os investigadores das questões trans estavam a recomendar a inclusão de diagnósticos de disforia de género em crianças e adolescentes, separados dos adultos e como entidade específica. Tive respostas indignadas de que queríamos patologizar as crianças e os jovens, de lhes impormos uma formatação social de género inflexível e repressora. 

Eu defendi (e defendo ainda) os profissionais que não teriam como intenção uma imposição de uma expressão de género rígida, mas sim abrir as portas ao apoio social, psicológico, médico, quando necessário, incluindo os menores que ficavam na invisibilidade; e que acompanhamos também as mudanças culturais e sociais. 

Desde então os diagnósticos mudaram, não sei se envelheceram, mas transformaram-se como a sociedade que todos nós fazemos. O Manual de Psiquiatria Americano DSM-5 (2013) chegou à expressão disforia de género, afastando-se da ideia de perturbação e abriu caminho a que o 11o Manual de Doenças da Organização Mundial de Saúde (a ser adoptado em 2022) coloque a incongruência de género em condições ligadas a saúde sexual e fora das doenças mentais. Foi um grande passo na despatologização que desejamos. 

Tenho de admitir que os pedidos de ajuda também mudaram. Se havia silêncio quando eu dava os primeiros passos na sexologia sobre as famílias, as crianças e jovens com uma expressão de género não normativa, fora do binarismo de género feminino-masculino, hoje a sua visibilidade aumentou muito. E os pedidos de ajuda também. 

Sendo eu abertamente uma terapeuta de formação afirmativa, contacto e recebo pedidos de famílias apoiantes, positivas, abertas ao desenvolvimento dos/as seus/suas filhos/as dentro da diversidade de género. Estas famílias já procuraram muito, já fizeram um longo caminho de descoberta das questões complexas da sexualidade e da diversidade sexual e de género e pedem ajuda por vezes apenas para se assegurar que estão a ser bons/boas pais/mães, para descobrirem como proteger os filhos/as na escola, nas comunidades, entre as suas famílias, por vezes, para encontrarem o seu caminho no complicado mundo do acesso à saúde, tantas vezes com boas leis e normas, com bons profissionais de saúde a quererem implementá-las, mas sem os recursos necessários nem as melhores condições para trabalhar (mas nao me vou queixar da Covid-19). 

Não sei como me aconteceu todo o tempo que passou, mas gosto de olhar para trás e sentir todas estas mudanças em tão pouco tempo (e tardaram). Observo com tristeza a co-existência e manutenção de preconceitos de transfobia; mas não consigo deixar de sentir optimismo com o que conseguimos mudar e queremos manter: nas leis, nas escolas, nas vidas particulares. Há hoje maior visibilidade, maior aceitação social, há projectos e associações que ajudam famílias com filh@s com diversidade de género (como a AMPLOS), temos as principais associações clínicas que condenam as terapias de conversão, desde as Associações de Pediatria e Psiquiatria na Americanas, a Ordem dos Psicólogos Portugueses e a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica que em 2019 emitiu uma declaração que condena tais terapias (https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/19317611.2019.1642280).

Não chegamos ainda ao destino do respeito e integração plenos das pessoas que vivem com diversidade de género e temos ainda muito para andar certamente. Mas gosto de sentir que nestes anos que passaram temos muito com que nos orgulhar e que profissionais de saúde e comunidades de pessoas LGBTQI+ estão juntos e de mãos dadas a fazer esse caminho.


Joana Almeida — Psicóloga Clínica, Terapeuta Sexual e membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC)

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