CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Paulo Côrte-Real

Os corpos – e o sexo – dos políticos

Não são anjos, são homens – mas, quando olhamos para eles, não nos ocorre logo que têm corpos. Não é assim com as mulheres – e, sobretudo, com as mulheres da política.

É que as mulheres têm sempre corpos, fomos aprendendo a reparar nisso desde sempre. Corpos estranhos: corpos que tentam, corpos que sangram, corpos que falham. 

Pensem lá: na ciência, como é a imagem de um corpo humano?

Temos uma imagem de base nas nossas cabeças – a imagem neutra, não é? E no máximo aparece o corpo de uma mulher como extra, sempre a costela.

Portanto, aprendemos que o corpo humano, esse que portanto é de um homem, é o corpo “neutro”. Já o corpo de uma mulher é o corpo estranho – e, como tal, é feito para ser observado, escrutinado, dissecado. Tipicamente, de resto, como sabemos, é um corpo magro demais e gordo demais e vestido demais e despido demais, entre vários outros defeitos e excessos.

Ser um homem no espaço público é ser um homem. Ser uma mulher no espaço público é ter um corpo.

E é por isso que ser mulher na política é um desafio permanente: ter um corpo é ser matéria, é ser falível, é ter que ter a consciência desse corpo e escolher como apresentá-lo, é ter que possivelmente passar horas em sessões de maquilhagem e de escolha de roupas e, claro, é também ser alvo de sexualização. É certo que a idade, como sempre, altera a perceção pública do corpo – e essa é, aliás, outra das grandes falhas das mulheres, como já deverão ter notado: diz que envelhecem muito.

Já um homem na política precisa de preocupações mínimas: basta a gravata-uniforme para ficar estabelecido como neutro e oferecer aquela segurança estética de estarmos em boas mãos. E é curioso como a gravata, esse símbolo fálico, afinal dessexualiza.

É também por isso, de resto, que ser assumidamente gay na política é difícil: com a sobressexualização de lésbicas e gays na cultura popular (porque falamos de pessoas identificadas a partir da sua – e que é também a minha – sexualidade), é impossível continuar neutro – e, portanto, é impossível continuar tão confiável.

A neutralidade de base é meio caminho andado para o sucesso na política. Quem não é neutro poderá lá chegar, mas com o esforço acrescido de ter que enfrentar as resistências emocionais que as pessoas em geral ainda parecem ter face a pessoas com corpos.

Será também por isso que, na política, só os homens – sobretudo hetero – é que podem ser Messias anunciados. Na corrida entre Barack Obama e Hillary Clinton em 2008, o Messias que inspira e move emocionalmente multidões só poderia ser o homem que no fundo é feito de ideias e de valores. Já a mulher é sempre emotiva demais e fria demais – e, claro, estridente demais nos discursos, até porque há pouca tradição de pregação a oferecer-lhe modelos e, sobretudo, a oferecer modelos a quem a ouve. Ah, e a mulher ainda tem roupas que distraem – e, sim, um corpo.

Deve ser mesmo difícil ser matéria e Messias ao mesmo tempo.

A propósito, ocorre-me um episódio recente por cá: a vacina de Marcelo, descamisado, que causou ondas generalizadas de choque estético. Parte do choque poderá estar relacionada com a assimetria evidente, porque uma mulher não poderia fazê-lo, estando no espaço público e sabendo que não é neutra. Mas parte pode estar também relacionada com a súbita perceção de que o Presidente da República também tem um corpo.

E não é bom que os políticos tenham corpos? Necessidades e prazeres? Falhas e recuperações? E não é bom que sejam também seres sexuais, desde que, evidentemente, as relações que estabelecem não sejam assentes em desigualdade?

Na mitologia sexista, os homens são anjos neutros e as mulheres são corpos de desconfiança; já a realidade sexista não podia estar mais longe da mitologia.

Perceber que todas as pessoas têm corpos pode ajudar a reequilibrar a forma como olhamos para o sexo: todas as pessoas (mulheres e homens) podem ser simultaneamente sujeitos e objetos de desejo.

Parece-me, por isso, que vale a pena lembrarmo-nos (e deixarmos as nossas cabeças perceberem) que os políticos não são anjos: para, em primeiro lugar, conseguirmos entusiasmar-nos mais coletivamente com as mulheres que avançam na política; e também para podermos exigir a todas as pessoas da política que ajudem a acabar com o sexismo.

Normalizar os corpos, perceber que nenhum é neutro – e perceber que isso é bom. E, de caminho, normalizar o sexo, recusando que ele esteja assente em desigualdade. Parece-me uma boa política.


Paulo Côrte-Real — Professor Universitário e Ativista

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