crónica —— o lugar do outro

Bernardo Mendonça

A nódoa da banana quando entra, nunca mais sai!

Acordara há pouco tempo. O cabelo ainda molhado. Decidira naquela manhã usar a camisa branca que estava arrumada no fundo da mala. A manhã quente, inspirou-me na escolha. Com esta camisa branca o calor não me compromete – pensei. Mal. (!) Estava em reportagem com o camarada fotojornalista Tiago Miranda, à caça de mais uma história que me desarrumasse a lista que rascunhara previamente no bloco preto. Queria traduzir a ilha da Madeira através das suas gentes, e estava completamente disponível para o espanto e para a surpresa. Uma coisa parecia evidente, tinha que contar a vida dos bravos que carregam as bananas pela ilha. O fruto que mais salta à vista naquele pedaço de terra do Atlântico. Como tinha essa ideia encucada na cabeça, a meio da via rápida, gritei para o Tiago: “Eiii, acabam de passar por nós, os homens das bananas! Vamos atrás deles!” E fomos. Quando eles finalmente pararam para se reabastecer de mais mercadoria, estacionámos e fomos pedir-lhes boleia. Acederam, sem resistência. E nós subimos a bordo. Mal me sento na parte detrás da carrinha junto daqueles heróis ouço o aviso de um deles: “A nódoa da banana quando entra, nunca mais sai!”. Pumbas. Esta frase dita com pronúncia madeirense cerrada de Câmara de Lobos, teve ainda mais impacto. Engoli em seco. Mas não dei parte de fraco. Lixei a camisa branca, mas acabara de nos cair no colo uma oportunidade única de conhecermos de perto aqueles marinheiros de terra em mares de bananas. Eis o que escrevi no meu bloco, também ele cheio de nódoas das ditas:

São uma tripulação de homens e rapazes, transportada pelo litoral da ilha numa carrinha de caixa aberta, para um trabalho de muito suor e dor. A suportarem no ombro cachos de trinta a cinquenta quilos, por entre veredas vertiginosas e irregulares caminhos de cabras. Num sobe e desce sem fim, à mercê do calor húmido, por atalhos a que nenhum turista ousaria ir. Cobertor dobrado entre a clavícula e a omoplata para não magoar a fruta. Golpe certo com a podoa agrícola para cortar o cacho. Não há tempo a perder. Não há queixas a fazer.

Por cada hora de trabalho 1,80 euros. Das 8h30 às 17h30 a carrinha da empresa tem que se encher de bananas até cima. Se alguém escorregar, raspar a perna ou torcer o pé é levantar rápido, boca calada, e rezar para que a banana não se tenha estragado.

A bordo desta carrinha comandada pelo motorista João Fernandes, 45 anos, convivem todo o tipo de personagens. São todos de Câmara de Lobos. Há o Paulino, o “Bruce Lee”. Que salta para a carrinha em pose de artes marciais quando está bem aviado de tinto. Há o José Delfino, de 53 anos, que esteve emigrado na Argentina e que é tratado por todos como “o padre” pelos sermões que dá aos mais novos. Pai de dois filhos, está sozinho por opção. “Elas querem uma boa vida e nós passamos a vida a acartar bananas”. Há o “brinquinho”, o benjamim Hélder Santos, de 20 anos, que ganha para sustentar os pais inválidos e sonha um dia conhecer Londres. “Por agora contento-me com as belas vistas do Garajau”. Tem medo de cair nas tentações e erros de alguns colegas. “O que a cabeça faz o corpo padece”. E há ainda o engatatão e bonitão, Cristiano Andrade, um rapaz moreno de 23 anos, piercing e brinco na orelha esquerda, à Corto Maltese. Cigarro ao canto da boca, corpo esguio e musculado, parece uma pantera a descer os socalcos na terra. Com uma mão ampara os cachos, com a outra manda SMS às miúdas que seduz. “Elas faltam às aulas só para me verem”, gaba-se. Cristiano começou aos 15 nesta vida. A bola é o seu horizonte, tal como o outro Cristiano, o avançado da Juventus. Só que este ganha apenas 490 euros por mês. Dividido entre si e a sua filha Beatriz, de três anos. À tarde, chuta como ponta de lança no Clube “Bairro da Argentina”, de segunda divisão. Estrada fora, estes marinheiros do asfalto galam todas as mulheres que se cruzam com eles. São “as primas”. Código de grupo. Quando a carrinha se enche com duas montanhas de bananas, uns vão para casa, outros para as tascas da vila. O vinho, a poncha e a cerveja são agora as fiéis companheiras. E fazem esquecer por momentos as dores do corpo e aquelas tristezas e mágoas, que como as nódoas da banana, quando entram nunca mais saem.


João Vasco — ilustração

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