AS PARTES PERTURBADORAS

Cartas para a minha filha

Cláudia Lucas Chéu

02.05.2021

Querida filha, meu docinho, 

Sinto necessidade de te escrever sobre o amor porque me disseste no outro dia que «o amor é como a droga, às vezes é bom e dá borboletas na barriga, mas outras é mau e deixa-nos presos àquela pessoa». Estavas a referir-te ao amor amoroso, isto porque tinhas acabado de ouvir uma música pop manhosa sobre o desgosto de perder alguém. Eu lembrei-me do Slavoj Žižek, um filósofo esloveno contemporâneo de quem gosto muito, que por acaso partilha a data de aniversário contigo. Para o dito filósofo «love is evil», que é como quem diz, «o amor é o mal». Durante muitos anos subscrevi esta teoria, sabes, também sentia o amor como um mal, porque, de todas as pessoas do universo, obriga-nos a gostar apenas daquela pessoa, e fica-se agarrado, como dizes, como se fosse uma droga. Contudo, nos últimos anos tenho pensado que esta tese é uma questão de perspectiva. Podemos olhar para esta incapacidade de fazer outra escolha como algo de verdadeiramente único que acontece nas nossas vidas. Um acontecimento excepcional. Porque será que, de tantas pessoas que conhecemos, só uma ínfima percentagem tem a capacidade de provocar este efeito? Ficar «agarrado» só devia acontecer dentro de uma relação saudável, que contém inevitavelmente os seus altos e baixos, e que, ainda assim, permite que as pessoas se amem e que sejam capazes de continuar a construir juntas. Mas sim, querida filha, muitas vezes o amor é uma droga destrutiva: quando há dependência emocional a sério. Aí, por mais tóxica que seja a outra pessoa, torna-se difícil largá-la sob esse carimbo de ser «a tal». «A tal» pessoa certa para nós, a única à face da terra, estou ciente de que não existe. Foi uma ideia criada pelo romantismo e pela religião, e funciona de forma a manter a sociedade organizada. Escolhes uma pessoa, crias uma casa, constróis uma família e entras na linha; vais estar formatado para não levantares questões à sociedade. E eu não tenho nada contra o conceito de família e de casal heteronormativo, que partilha uma vida inteira, mas é preciso dizer que não é a única forma de se viver em sociedade. Há várias possibilidades, há algumas pessoas que podem ser «a tal pessoa». Embora, com a idade, ganhe consciência de que não são muitas, há umas quantas, poucochinhas. E não, isto não significa que andemos a saltar de uma droga para outra, de um consumo para outro; que é como quem diz, «de um amante para outro». O importante é que cada relação, cada amor «seja eterno enquanto dure», como diz o poeta Vinicius. 

Por isso, querida filha, o importante no amor é a amizade. Depois das «borboletas na barriga», como tu disseste porque já deves ter ouvido esse clichê algures, o importante é a afeição, o companheirismo. O mais importante é que não o sintas como uma droga e seja muito mais do que sexo, tal como indica o suporte através do qual te escrevo.  

Despeço-me com amor, daquele que por minha vontade nunca será tóxico.  

Aceita beijos da tua mãe.


Cláudia Lucas Chéu — escritora, poeta, dramaturga

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