crónica —— dentro de mim

Marta Crawford

Quando o meu corpo sorriu


Dez dedos, dois pés, duas nádegas, duas mamas, seis litros de sangue, 30 sinais, 66000 cabelos, 29 dentes, duas orelhas, 1000 pêlos púbicos, duas pernas, dois mamilos, 20 unhas, 100 pestanas. Olho-me ao espelho e vejo o reflexo do meu corpo. Hoje, acho-o especialmente belo. 

Espalho o óleo essencial de alfazema que trouxe da Toscânia e vejo-o a desaparecer na minha pele. A minha barriga parece-me mais lisa do que é costume e as minhas mamas estão mais firmes. O odor do óleo começa a misturar-se com o meu próprio cheiro. Noto todos os meus sentidos. Começo a imaginar que alguém me toca e toco-me, imagino que me beija e beijo-me, imagino que me lambe e lambo-me…  acaricio-me ao som desta melodia que me exalta…….king of thebes…. ‘Til the snakes drop, drop, drop……….Drop, drop, drop, drop, drop from her head

Triiiim ! triiiiim ! triiiiim !   É o “maldito” carteiro, porque raio toca sempre três vezes? 

Enfio a minha túnica de mil cores pela cabeça e fecho o zip situado nas costas com rapidez. Desço as escadas e corro para a porta para a abrir. A claridade das nuvens fere-me a vista. Quando consigo ambientar-me à luminosidade, vejo um homem encharcado, com os seus cabelos a pingarem pequenas gotículas de água sobre o rosto. 

Convido-o a entrar. Já dentro de casa, no hall da entrada, formou-se uma poça de água que se alastrou como um pequeno lago no meu chão encerado. Podia jurar que via peixes a nadar por entre as suas botas grossas, nenúfares e uma pequena rã que observava da margem e saltava para apanhar uma libelinha no voo….splash!

— Despe-te todo! 

E ele despiu-se, lentamente, tirando a farda molhada e tudo o resto até ficar nu. Um corpo seco, com uns braços fortes, peitorais musculados e maciços. O resto era bem proporcionado e equilibrado. A pele morena, hidratada e um pénis bem esculpido. 

Naquele momento, ouvi de novo…. ‘Til the snakes drop, drop, drop……….Drop, drop, drop, drop, drop from her head…

Não hesitei.

— Despe-me! 

E ele despiu-me, lentamente, a túnica que comprei na minha última viagem à China. Tinha, exatamente, 52 botões e 15 colchetes de pano e era bordada a fio de ouro. Delicadamente, o carteiro foi soltando todos aqueles botões como se fossem bagos de uva a cair pelo chão, deixando à mostra a minha pele branca sequiosa por contato masculino. 

Por baixo daquela túnica estava nua e o meu corpo clamava por atenção. 

As suas mãos firmes despiram-me sem pressa. Via-o espreitar como uma criança que quer espiar o decote da sua mãe com desejo. Beijou-me cada pedaço de pele que ia ficando a descoberto. 

Depois de abrir os meus 67 botões e colchetes, fiquei nua à sua frente. Imaginei que aquele homem ereto, ia saltar-me para cima e possuir-me sem pudor. Apetecia-me que assim fosse. Mas, ao invés, deitou-me sobre o tapete persa e começou a tocar todas as partes do meu corpo nu. Com a ponta dos dedos, acariciou-me dos pés à cabeça e, com a língua e os lábios, ia descobrindo e ativando cada tesouro escondido por baixo da minha pele. Fê-lo de forma tão sensorial que o meu corpo começou a sorrir, a fluir, a deixar-se ir nas mãos dele. 

Quando um corpo é tocado com o cuidado e preocupação divina transforma-se. Se é feito com tempo e delicadeza, proporciona sensações transcendentais difíceis de compreender. 

Senti uma excitação tão profunda e tão intensa que entrei numa realidade paralela. O meu corpo abriu-se de tal forma que começou a libertar aquele perfume libidinoso que tão bem conhecia e que se misturava com o dele. Alfazema e Almíscar.  Conhecia bem o poder do Almíscar. Entreguei-me.

Beijou-me até ao meu monte de Vénus e dirigiu-se ao capuz do meu clitóris, com o ritmo capaz de ativar as minhas 8 mil terminações nervosas quase em simultâneo. A excitação era vertiginosa, os espasmos começavam a agitar o meu corpo, suava ligeiramente e os meus mamilos cresciam de forma exuberante. Quando ele me acariciou com mais intensidade e me sugou como se fosse uma serpente, não aguentei mais. Senti tanto prazer que ‘Til the snakes drop, drop, drop……….Drop, drop, drop, drop, drop from her head

Acordou, esgotada, e os negros olhos velavam-na com tranquilidade. 

Levantou-a, vestiu-lhe a túnica e abotoou-lhe os 52 botões e 15 colchetes. Depois, entregou-lhe uma carta, vestiu-se e partiu.




João Vasco — ilustração

Escolha musical — Oedipus, King of Thebes, Z. 583/2: “Music for a while” · Christina Pluhar · L’Arpeggiata · Philippe Jaroussky

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