crónica —— o lugar do outro

Bernardo Mendonça

‘Safa, o pescador’ e a mulher âncora

A partir das duas da madrugada, o silêncio é interrompido pelo grasnar das gaivotas que enchem o céu da doca de Olhão, atraídas pelo pescado que as traineiras trouxeram do mar alto. Emanuel, ou “Safa”, como é tratado pelos camaradas do mar, acaba de chegar de mais uma pescaria. Desta vez houve um contratempo: a rede rasgou-se e perdeu-se muito peixe. Menos dinheiro para o bolso de cada um — assim é a lei da pesca. E amanhã é esperar melhor sorte na rede.


“Safa” é o mais novo da traineira — a maior parte dos seus camaradas tem mais de 40 anos —, mas é o mais corpulento e atirado a pegar nas caixas pesadas. Até às cinco da manhã, ele e os companheiros de faina não param um segundo a separar peixe em caixas, para ser vendido aos “arrières”, os compradores. O mestre da embarcação dá a cada um deles uma caixa com cinco quilos de peixe, e os pescadores vendem-no por fora, por 10 ou 15 euros. Dinheiro para o lanche e para o tabaco. Pelas seis da manhã nasce o sol. “Safa” vai finalmente para casa, após 12 horas de trabalho. Às seis da tarde é hora de voltar ao mar. 


“Safa” é um rapaz atlético, bonito, de olhos esverdeados enfiados no chão, de poucas palavras. Vive para o trabalho, mas tem sonhos. Neles está a mulher maravilha que ainda não conheceu, mas com quem um dia vai querer casar. E não desiste da ideia de um dia vir a ser oficial da Marinha. De voz baixa, com cautela, ele conta-se. Ouçam-no, ao som do mar e das gaivotas.


“Há dois anos tatuei uma âncora no braço direito. É a tatuagem do Popeye. Por ser um dos apelidos que os camaradas do barco me deram. Chamavam-me “Popeye” por causa da minha força. Pela maneira como jogo a mão às coisas pesadas, à bruta. Quando comecei a ir ao mar era “o Sombra”. Porque sou tímido, calado e, enquanto os meus colegas saíam juntos do barco à conversa, eu deixava-me ficar para trás. E eles repararam: “Olha, aquele parece a nossa sombra.” Durante uns tempos fiquei “O Sombra”.


Hoje sou mais conhecido por “Safa”. Porque um dia safei uma gaivota que se enrolou numa rede. Salvei o bicho de morte certa. E “Safa”, também, porque me safei muito cedo na vida. Comecei a ir ao mar logo aos 14 anos. Teve de ser, passei por uma infelicidade na vida, os meus pais divorciaram-se e tudo se desmoronou. A minha mãe faltou-me, abandonou-nos. Tive de me governar com o meu pai, a cozinhar a nossa comida. Deixei de estudar no 9º ano e lancei-me ao trabalho na traineira. A reagir para sobreviver. Ficou para trás o desejo de ser oficial da Marinha e de ter a honra de vestir a farda branca, que não é para todos. Cresci por mim próprio, ganhei outra maturidade, outra maneira de ver as coisas, com a ajuda do meu pai, um grande Homem. Nesse aspeto tive sorte, sou filho de um pai-mãe que me ensinou tudo o que precisava. As coisas que a minha mãe não me ensinou aprendi-as com ele.


Há cerca de três anos tive um contacto com ela. Mãe é mãe, e a gente perdoa, não é? Só temos de perdoar. Veio pedir-me desculpa. Não precisou de me dar as suas razões, porque eu já as conhecia bem. São assuntos desagradáveis. A gente prefere esconder. Passado é passado, e daqui é sempre para a frente, a continuar a viver. A vida da pesca é cansativa, o corpo queixa-se, são muitas horas no mar, mas adoro. Quando estou a trabalhar sinto-me livre. O mar dá-me energia, dá-me vida. E adoro sentir a brisa, o cheiro, ver o peixe a saltar. E sabe-me bem estar rodeado de bons camaradas, que isso também é muito importante. O mestre faz a companha [tripulação do barco], e a companha faz o mestre. Todas as noites, perto das cinco da manhã, vamos beber uns copos de vinho e comer umas bifanas a uma rulote aberta até de madrugada. Quando há pagamento, ficamos na conversa, e vai-se bebendo, e aí há mais umas bebedeirazinhas. Eu apanho algumas, admito. Sou novo, tenho de me divertir.


Esta noite pescámos carapau branco, carapau negrão, cavala e uma sarda ou outra. Trouxemos perto de dois mil quilos de pescado. Podíamos ter trazido mais. Mas houve um empache [incidente na rede], onde julgamos ter perdido muito peixe. A arte [rede] desta vez apanhou uns covos [espécie de gaiolas de plástico usadas para apanhar polvo] e a rede rasgou-se. Tivemos de a remendar, ressecar e fazer outro lance para tentar apanhar mais peixe. Pelas cinco e meia chegam os compradores. Dependendo da pescaria, ganhamos uma comissão da venda. Metade do dinheiro vai para o dono do barco e a outra metade vai para o mestre e a sua companha. No verão ganho cerca de 200 euros semanais. No inverno, o mar muda muito, surgem tempestades, posso não tirar nada ou ganhar apenas 200 euros por mês. Para me safar vou ao berbigão e outro marisco, ando na ria para ganhar. E a ria é afortunada. 


Com 14 anos podia ter-me tornado um rebelde, mas optei por viver a vida a trabalhar. É o que traz futuro. Gozo a vida aos fins de semana, nos bares e discotecas. De verão pego no meu barquinho, vou para a praia, bebo uns copos com a malta amiga.


Quanto a amores? Não se pode dizer que tenho namorada, é uma amiga especial. Uma namorada é uma coisa mais séria. E uma amiga é uma relação sem compromisso. Não me quero afeiçoar a uma mulher à toa. Tenho objetivos. Não acho que uma mulher que ande aos beijos com um e com outro vá ser uma boa dona de casa. Portanto, não dou um passo em frente. Uma mulher em condições, com M grande, é difícil de encontrar. E o meu coração é difícil de conquistar, talvez pela infância que tive. Tenho medo que me abandonem. Desejo uma mulher que seja a minha âncora.


João Vasco — ilustração

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on email
Share on google