CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Madalena de Carvalho

Olá, (des)Amor… e Adeus… ou Terapia de Casal

Assumimos um compromisso emocional com um parceiro amoroso, e quase sempre, porque estamos apaixonados e nos queremos sentir amados, especiais, dizem: a “prova” de um profundo amor. Depois, continuamos casados porque conseguimos aceitar o percurso normal de desidealização, aceitando o outro e a relação como são… e não como desejámos e acreditámos que fossem. Outras vezes porque aceitamos continuar numa relação que é sempre de alto risco. A relação conjugal é a relação familiar mais imprevisível. Cada um de nós aceita viver, disfrutar, entregar-se, às vezes reinvestir numa relação que nunca se sabe como vai evoluir.

Claro que há os que continuam a viver juntos numa conjugalidade insatisfatória, vivendo enquanto pais (existirem filhos mantem duas pessoas juntas… cada vez menos, é verdade), mas não enquanto casal, que ou nunca foi verdadeiramente construído ou se foi empobrecendo. Para outros continuar casado significa fugir a um “luto”, por um sonho que se teve, um projeto de vida em que se acreditou muito e, muitas vezes, pelo qual se lutou, nalguns casos décadas a fio. Falo do luto pela relação de casal. Depois há motivos como a pressão e o julgamento social ainda associados ao divórcio, como o dito “egoísmo” do que toma essa decisão, quando afinal o divórcio nunca é indolor e muito raramente “precipitado”.

Algo que encontro em sala de consulta, nos últimos 15-20 anos e cada vez com mais intensidade, são os homens que estão em consulta em grande sofrimento porque não se sentem amados, cuidados. No passado esta era uma queixa mais delas. Os homens faziam outras “queixas”, agora pedem “mimo”, mais tempo vivido a dois como casal. 

O que alimenta o casal é o amor, que talvez só os músicos saibam descrever, viver uma relação sexual gratificante, a comunicação saudável, o respeito, a permanente reconstrução da relação, pois se “eu” mudo e o “outro” muda, a relação também muda, algo que nem sempre é claro e aceite pelos parceiros. E se somos pais não permitir que tal abafe a relação conjugal. Enquanto terapeuta de casal, demasiadas vezes encontro casais que confrontados com a “saída” dos filhos, não se reconhecem enquanto casal: é o “encontro” de dois estranhos, um desencontro.

É irrealista esperar que o outro e a relação se mantenham relativamente constantes ao longo dos anos… “Mas nós casámos por amor… estávamos tão apaixonados, como chegámos a este ponto?!”. Há um fenómeno que costumamos designar por mito da “Bola de Cristal” e que faz parte da realidade de muitos dos casais em sofrimento: “não digo o que penso/sinto/quero/desejo porque ele(a) sabe”. Como se o parceiro tivesse essa magia: não preciso de dizer, e porque também eu tenho essa magia: não preciso de escutar, porque “… afinal já estamos juntos há x ou y anos… e quando decidimos ficar juntos estávamos tão apaixonados”. Ora isto é profundamente armadilhante ou mesmo destrutivo. E é também por aqui que se dá a magia da terapia de casal, terapia com casais, como eu prefiro dizer…. Exigente, complexa, às vezes louca (como é sempre a conjugalidade)… mas uma modalidade de intervenção apaixonante


Madalena de Carvalho — professora universitária, terapeuta de casal e familiar.

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