CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Melissa Lyra

O estranho caso do fantasma desposificador

– Estás a ver este? – a amiga da faculdade espeta-te com o telemóvel na cara. É a foto dum sujeitinho anafado.

Ela é direta, diz-te que o comeste. Tu negas. Não reconheces o homem da foto, esforças a vista. A amiga está impaciente, mostra uma foto do anafadinho 25 anos antes.

Ah. Assumes a derrota.

A amiga continua na galeria de fotos de antigamente.

Para com isso, suplicas-lhe.

Mas ela não vai parar. Erraste ao deixar escapar um juízo de valor sobre a sua animada vida sexual e ela está vingativa. Então, no próximo minuto ou dois, fará desfilar diante dos teus olhos rapazes que passaram pela tua vida – pela tua cama -, antes de casares e que tu tão convenientemente foste apagando nas últimas décadas para dar lugar à mulher que ali está. Tem uma memória implacável, a amiga. Sabe pormenores, até porque nunca foste a rainha da discrição.

Há uma foto tua numa lanchonete. Calças mais justas do que o aceitável, saltos que não podem com as tuas coxas. É quase dia. Da noite que o antecede, lembras-te bem.

 Rendes-te às evidências: caíste na armadilha que, lá atrás, juraste nunca cair.

 Tornaste-te uma esposa. Esposificaste.

Dizes à amiga que não queres ver mais nada. É inútil, porque, do nada, aquela versão de ti já está à tua frente e caramba, está furiosa. Quer ajustar contas. E é naquele momento que a carapaça que passaste 20 anos a criar começa a rachar. Choras a bom chorar em pleno Rossio.

A amiga vai-se embora, mas a versão de ti vestida para matar não vai a parte alguma. Não aprova aquilo em que tornaste. Vai estar, daí para a frente, do teu lado a julgar as cuecas que compras e o que fazes ao cabelo. Mexe na tua playlist e no que andas a ler. Cancela as aulas de yoga e mete-te em danças latinas. Agarra-te no queixo, mostra-te que outros homens estiveram a olhar para ti e, desta vez, acreditas.  Empurra-te para os braços do teu marido que já não se lembrava de que um dia tinhas sido assim tão energética. É confuso, mas em bom.

A versão de ti que não te larga, o fantasma desposificador, é forte e tenaz. Não te deixa dar um único passo para trás e agora manda na tua vida. Mas onde vamos parar, perguntas-lhe. Onde vieste *tu*parar, responde.

 Tiras a aliança e olhas para a marca no dedo. O fantasminha ri-se. Lembras-te da regra? Procurar sempre a marca da aliança nas mãos deles, carimbo de cafajestes. Tu não és cafajeste nenhuma e sentes-te nua sem aliança, mas nua é como queres estar. A aliança vai para a gaveta. Voltará na hora certa.

***

– Estava uma carcaça assexuada – disse eu à N. há poucos dias.

– Conheces alguém que depois de 20 anos de casada não esteja, respondeu-me ela.

Adoraria ter receita para desposificar todas as esposificadas, aquele toquezinho no gelo fino que sai rachando tudo. Não tenho, mas não acredito que a carapaça que vamos criando ao longo de décadas a equilibrar carreira, marido, casa e filhos seja impenetrável. Isso queríamos nós, porque temos medo de desmoronar. Em algum momento fez-se necessário dissociar a ideia de esposa e mãe como ser sexual, mas acreditem: a brecha está lá, à espera da vossa curiosidade. Podem nem precisar de fantasmas de tempos idos ou de amigas com boa memória. O empurrão pode vir de um elogio inesperado, um novo olhar que vos devolvam ao que nunca deixaram de ser. Mesmo sem um passado de lanchonetes e roupa mal dimensionada, pode haver um futuro de juventude a construir. As possibilidades são infinitas.


Melissa Lyra — guionista e tradutora

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