AS PARTES PERTURBADORAS

Cartas para a minha filha

Cláudia Lucas Chéu

25.04.2021

«Mãe, porque é que dizem que dói a primeira vez que se faz sexo?» A pergunta veio do nada, quando ainda estava praticamente a dormir, sentada à mesa do pequeno-almoço. «Como é que tu sabes que dói?» «Foste tu que me explicaste, mãe.» Ai fui? Sinceramente, não me lembro, deve ter sido num interrogatório sexual já antigo. Dei uma dentada no pão de brioche e um golo no café com leite, tentando ter ânimo e coragem para aquele assunto quando ainda nem sequer tinha lavado a cara. «Então, dói porque a vagina é estreita e tem de se habituar ao tamanho do pénis.»

Não ligaste à minha resposta, bebeste mais um bocado da caneca de leite com chocolate e prosseguiste a tua demanda por coisas que realmente te intrigam. «Mas o H. disse-me que também se pode pôr o pénis no rabo?» A sério, filha, senti o meu cérebro a chocalhar, até me custou engolir o pedacinho de pão que tinha pronto na língua. «Ai, o H. disse isso? Ele é doido. Claro que não se pode.» Menti-te, obviamente, mas tu lá tens idade para falar sobre sexo anal. A sério? Deus me livre de começar o dia a falar sobre este assunto. 

E é nestes momentos que eu, não sendo crente, até acho que sou porque o nome dele vem-me à cabeça em jeito de socorro. Menti-te, claro, e mentiria novamente. É um assunto que não me desperta interesse, nem sequer de o abordar com adultos. Falar contigo sobre sexo anal dá-me ainda mais pudor do que explicar-te o que é o esmegma. Fiquei a pensar porquê. Claramente os meus preconceitos e algum desdém pela prática contribuem para esta reacção. Também fiquei a pensar que as mentiras são necessárias, às vezes, e isto foi uma coisa que aprendi só há alguns anos. A sinceridade acima de tudo é uma coisa de idiotas, de brutos com a mania da honestidade, vais perceber quando cresceres. Há coisas que simplesmente não são oportunas ou que nos parecem inapropriadas.

 Falar sobre sexo anal com uma filha pequena é uma circunstância que justifica a mentira. Vais perceber mais tarde que te menti, mas talvez nessa altura compreendas o que me levou a mentir. É claro que o pénis também se pode pôr no rabo, na boca, onde e quando os amantes quiserem. Mas isso é algo que aprenderás com o tempo, quando chegar o tempo, e eu rezo para que seja daqui a muitos anos e que eu já nem me aperceba bem do que andarás a fazer. Porque nenhuma mãe gosta de imaginar os filhos a fazerem aquilo que também fazemos, e que os nossos pais fazem ou fizeram e que também não queremos saber. Sabemos que existe, existiu ou vai existir, mas não queremos sequer imaginar. 

Continuámos o pequeno-almoço em silêncio. Tu já vestida para ires para a escola, e eu despenteada e desnorteada com o tema da conversa. Deves ter percebido, porque raramente te escapa alguma coisa, e resolveste concluir o assunto: «Olha, mãe, não fiques chateada com o que te disse. Até podes escrever sobre isto nas cartas para mim.» E cá está, querida filha, as tuas sugestões são sempre bem-vindas. Aqui fica mais esta carta sobre sexo anal, sem ser sobre sexo anal, porque a tua mãe fez questão de te mentir e, já que estamos no tema dos rabos, de fugir com o rabo à seringa.


Cláudia Lucas Chéu — escritora, poeta, dramaturga

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