Escolha e leitura do poema por Filipe Lopes, promotor cultural e presidente da Associação de Ideias



Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça

de magnificar meu membro.

Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos

em posição devota.

O que passou não é passado morto.

Para sempre e um dia

o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,

na total impossibilidade de gesto ou comunicação.

Não te vejo não te escuto não te aperto

mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um Deus.

—— Carlos Drummond de Andrade, em “O amor natural”. Rio de Janeiro: Record, 1992.



Carlos Drummond de Andrade —— foi poeta, contista e cronista brasileiro do período do modernismo. Considerado um dos maiores escritores do Brasil, Drummond fez parte da segunda geração modernista. Foi precursor da chamada “poesia de 30” com a publicação da obra “Alguma Poesia“. Em 1992 “O amor natural” foi saudado, com justiça, como um grande acontecimento cultural: a lírica erótica (e por vezes pornográfica) de um dos maiores poetas da literatura brasileira finalmente pôde ser lida por todos.

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