crónica —— dentro de mim

Marta Crawford

Neva dentro de mim

Chovia torrencialmente, quando o carro parou à frente de sua casa. O visor marcava 18 graus, mas, quando abriu a porta, a sensação térmica provocou-lhe um arrepio profundo – nevava dentro de si. O casaco de pelo de raposa, que tinha herdado da avó, não lhe aquecia o corpo e o chapéu russo do avô não lhe conseguiu aquecer a alma. Precisava urgentemente de encontrar a sua alma gémea. Ficara perdida, pelo caminho. Não podia aceitar que aquele, que tinha tudo para ser o seu grande amor, partisse, se fosse embora e que nunca mais o visse. Seria um golpe tremendo para o seu coração frágil, que padecia já há muito tempo de tremores. 

Diziam-lhe que tinha uma fibrilhação auricular. O médico insistia que ela devia tomar a medicação diariamente, mas ela não queria saber. Queria sentir tudo a que tinha direito, mesmo que fosse pela última vez. E a paixão que tinha pela vida era tão forte, que a queria viver à sua maneira, mesmo que morresse antes de tempo.

A inocência e a falta de experiência no amor não se revelaram um obstáculo para tudo o que viveu naquela noite. Ela, uma jovem soprano com uma extensão vocal invejável e de um timbre único. Ele, um contratenor em ascensão, com uma “voz de cabeça” excecional. Não se conheciam. Nunca tinham estado juntos antes. Mas quis o destino que ficassem presos num elevador de uma das melhores e mais belas salas de espetáculos do mundo: Concertgebouw em Amesterdão, reconhecida pela sua excelente acústica. 

Alice ficou em pânico, odiava espaços confinados desde pequena e começou a hiperventilar. Ele emudeceu.

Os primeiros cinco minutos foram desesperantes, não sabiam o que fazer, como respirar, o que pensar, o que dizer. Examinaram-se imóveis. O elevador estava imobilizado, não havia ruído exterior e o botão de emergência não respondeu às solicitações. Nada. Tinham que esperar, conter a angústia e esperar que os libertassem. 

Os dois observaram-se, quietos, a avaliar a situação mentalmente, sem que nenhum som saísse das suas bocas. Até que ela, desesperada por ouvir apenas o seu coração a desafinar, começou a despir-se: tirou a casaco, o gorro, abriu os botões da camisa, despiu a camisa, depois descalçou os sapatos, as meias, as calças, ficando só de lingerie. Depois, num movimento inverso, começou a vestir-se na mesma sequência. Primeiro as calças, a seguir as meias, sapatos, camisa, casaco e por fim o gorro do avô. Ele estava incrédulo com o que assistia. Nunca tinha visto nada assim. Quando ela voltou a tirar o gorro e se preparava para repetir tudo outra vez, abraçou-a para a conter e a toda aquela agitação. Ela deixou-se envolver. Porém os ritmos daqueles dois corpos desconhecidos estavam desacordados e foi aí que ele se pronunciou pela primeira vez. Pediu-lhe que tentasse acertar os ritmos respiratórios pelos dele, que se concentrasse no seu batimento cardíaco. Nesse encontro, ele começou a fazer sair de dentro de si murmúrios sonoros entre dentes, que ela reconheceu de imediato: What power art thou, da semi-ópera King Arthur de Purcell era uma verdadeira doçura para os seus ouvidos…

What power art thou, who from below
Hast made me rise unwillingly and slow
From beds of everlasting, everlasting snow
See’st thou not how stiff, how stiff and wondrous old
Far unfit to bear the bitter cold
I can scarcely move or draw my breath
I can scarcely move or draw my breath

Let me, let me freeze again
Let me, let me freeze again to death
Let me, let me freeze again to death

Quando os ritmos cardíacos se alinharam, a respiração ofegante de ambos reforçou aquele canto. Pareciam cantar a uma só voz. A voz dela saía de dentro dele e a dele saía de dentro dela, como se fossem dois instrumentos musicais encastrados dentro um do outro. Lembrou-se da matriosca russa, onde cada peça contém a outra dentro de si, sucessivamente até não poder mais. Aquele abraço, vestido, dentro do elevador com um desconhecido com quem cantou a uma só voz, foi arrebatador.

 Let me, let me freeze again to death 

Quando as portas do elevador abriram, bombeiros e seguranças correram para os tirar apressadamente lá de dentro, mas eles não se moviam: estavam presos um ao outro. Só mesmo quando lhes tocaram no corpo com insistência, é que ambos se libertaram. Foram levados para o foyer sem perceber o que se tinha passado. 

Ninguém duvidou que eles não eram um casal e com essa suposição enfiaram-nos no mesmo uber, com um pedido de mil desculpas e a promessa de bilhetes vitalícios. Sentaram-se no banco de trás do transporte que os levaria ao seu destino. Encostados um ao outro, colados. Estavam em brasa, mas em silêncio. Ele saiu primeiro e ela continuou. Não se tinham apresentado, não sabia o seu nome, a sua nacionalidade, nada. E foi nesse momento que se sentiu a congelar novamente até a morte.

(Continua a ler este conto, outra vez, desde o início)


João Vasco —— ilustração

Escolha musical King Arthur, or The British Worthy(1691) .
Act3:What power art thou, de Henry Purcell, Andreas Scholl, Academia Bizantina, Stefano Montanari

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