crónica —— o lugar do outro

Bernardo Mendonça

Deus é pai. E Rita é a deusa do fetiche.

Tínhamos acabado de encostar o carro, depois de um longo dia de reportagem na ilha da Madeira. O corpo doía, estávamos saturados de ziguezaguear o asfalto e de abordar pessoas à beira da estrada para as retratar. Eu e o fotojornalista Tiago Miranda [volto a nomeá-lo em mais uma crónica porque foi com ele que vivi algumas das situações mais incríveis e inusitadas no desempenho da profissão] fomos convidados para criar uma obra artística sobre as vias rápidas do arquipélago, para ser exposta numa mostra coletiva no Centro de Artes “Casa das Mudas”, na Calheta, sob a direcção do arquitecto Duarte Santo. 

Naquela ilha, transformada numa espécie de queijo suíço tantas são as velozes vias que furam as rochas a direito para encurtar caminho, quisemos explorar os caminhos alternativos, mais longos e sinuosos, e retratar as povoações que se avistam nas bermas das estradas velhas e secundárias. Acima de tudo, queríamos descobrir o lado genuíno da ilha. Que é sempre o mais interessante.

Mas nessa noite foi já no Funchal, na esplanada de um restaurante moderno de sushi, que alguém me despertou a atenção. A gargalhada sonora, sem pedir licença, a pronúncia madeirense carregada, o visual extravagante num corpo musculado e andrógeno levaram-me à pergunta: “Já é possível encontrar nesta ilha, pessoas tão ousadas e fascinantes quanto em Las Vegas ou Nova Iorque?” E em menos de nada arrisquei abordá-la. “Peço desculpa, mas não consegui deixar de reparar em si.” Lá lhe expliquei que estávamos a retratar madeirenses e a contar as suas histórias. Para melhor contar a ilha. Nova gargalhada. E depois de um piscar de olhos cúmplice para o amigo com quem estava a jantar, abriu a mala e num só gesto, com as suas enormes unhas vermelhas, estendeu-me um cartão. “Sou a Rita Sargo. Espreite o meu site e depois falamos.” Agradeci, e sem perceber o motivo de tanto mistério e ironia, prometi ligar-lhe. 

Já no carro, eu e o Tiago ‘googlámos’ de imediato o site que aparecia a cintilar no cartão: RITASARGO.COM. A página abriu e os nossos olhos cresceram como nos desenhos animados. Wow. Rita era afinal uma ciber-estrela mundial do erotismo e do fetiche. O sonho lascivo de quem deseja ser dominado por uma mulher forte e possante. Uma bomba letal, de 32 anos, com 1,66m e 78 quilos. E como depois Rita me contou, não faltavam homens no planeta que pagavam para lutar com ela, em estúdios ou quartos de hotel. De Nova Iorque a Londres. A cama era a arena. Admiradores “Rita-maníacos” que iam ao céu e aos infernos com a hipótese de serem subjugados, espremidos e esborrachados pelo poder das pernas e das coxas desta guerreira. Asfixiados até ao êxtase. Estrangulados até ao tutano com golpes de jiu-jitsu, judo e luta greco-romana. Presas na armadilha das coxas de aço de R-I-T-A-S-A-R-G-O.C-O-M. (Não vale a pena googlar agora, o site já foi entretanto apagado.) 

Nesse tempo, no mundo virtual Rita desafiava, provocava, intimidava, baralhava conceitos, géneros e fantasias. Mas nas ruas do Funchal, Rita também não passava despercebida. Mais parecia uma heroína recortada de uma banda desenhada. Barbarella cruzada de Hulk. Super mulher arraçada de Tarzan. Máscula e delicada. A desarrumar de uma maneira irresistível, e só dela, os padrões e espartilhos de género. Voz grossa, sorriso suave, pose e brilho de diva. Ao volante do seu descapotável rasgava o vento e as mentalidades da ilha. Abençoada seja.

Quando voltei a combinar um encontro com Rita, ela contou-me finalmente o que andou até aqui chegar. Rita não era bem daquela ilha, embora lá tivesse nascido. Rita era do outro mundo. Da terra dos sonhos, do Palma, onde podemos ser quem nós quisermos que ninguém leva a mal. Porque nesse lugar ninguém olha os outros com as palas do preconceito e toda a gente trata toda gente por igual.

Menina rebelde criada no Funchal nunca se sentiu uma criança como as outras. Na adolescência descobriu o impacto do seu corpo e passou a usar roupas que atearam fogo à ‘bilhardice’. Saias minúsculas, saltos vertiginosos, umbigo à espreita, sexualidade à flor da pele. E uma mulher assim assusta muitos homens e é sentida como ameaça para as mulheres. Uma cheia de insultos costumava inundar a rua à sua passagem. Rita era ameaça. Por ser diferente. Livre. O sexo forte.

Aluna de boas notas, Rita sentiu cedo que a sua estrada seguia além do arquipélago onde nasceu. E foi a ver o concurso Miss Fitness América no televisor de casa dos pais que traçou a sua missão. Fazer do físico uma escultura de rocha e arriscar atravessar o horizonte além do mar. E aos 18 anos voou. “Precisava de me libertar desta ilha”. Andou por muitos lados e pousou definitivamente em Amesterdão. Já foi instrutora de ginásio, secretária, motorista e dançarina do varão. “Agora sou uma rainha. Gosto que me sirvam”. E rebentou mais uma amplificada gargalhada. Ironia e perfume doce exalavam da sua pele.

Rita anda há uma vida a agigantar-se de músculos, em busca da perfeição hercúlea, na esperança de um dia sentir o arrepio da faixa “Miss Olympia” a assentar-lhe no busto, num palco em Las Vegas. O título para a maior culturista do planeta. Deus é pai. E Rita quer ser a deusa. Entre treinos, competições e prémios ganha a vida como modelo-fetiche. Sexo não incluído. É a culturista das máscaras e do jogo erótico. Rita, a colegial. Rita, a agente dupla. Rita, a pin-up. Rita, a boxeur. Rita, a secretária. Rita, a dama de látex. Por onde passa, um séquito de homens aos pés. A desejarem ser dominados pelas super coxas de Rita. E Rita lá me explicou as maravilhas da asfixia erótica. Parece que aquele momento de submissão e de quase estrangulamento dava aos sujeitos uma pica sem tamanho. Cada um com a sua tara. E mania.

À terra o que é da terra. E Rita regressa duas vezes por ano à sua ilha – que é também a minha – e aos abraços dos pais e amigos, aos treinos sem tempo, às águas mornas e azuis da praia do Caniço, à estrada que lhe devolve a paz de espírito e relembra o esplendor postal de onde veio. Intervalos na sua realidade. Tem de voltar a partir. Ainda há muitas lutas e títulos para ganhar. E um sem fim de homens para esborrachar.


João Vasco —— ilustração

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