CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Aldina Duarte

Na pele das palavras

As palavras são sagradas no amor e na vida. Podem ser ditas, escritas, cantadas, pintadas, bordadas, esculpidas, codificadas, ocultadas ou silenciadas. Uma vez, depois de terminado um namoro breve, mas intenso, resolvi esconder na casa do ex-namorado um papel com a palavra inventada só para nós dois. Até hoje não sei se foi encontrada, se continua no esconderijo onde a deixei, não importa. Contudo, passados tantos anos, aqui estou eu a escrever sobre ela, sem a revelar nem ao seu autor. 

Na verdade, as palavras são uma espécie de pele dos pensamentos e sentimentos; uma das formas de nos conhecermos uns aos outros, de dar a ver quem somos, de reconhecimento mútuo, de revelação do mundo interior que somos no mundo exterior em que vivemos. Ainda que não precise de aprender a ler, o amor é, também, nas palavras que se entrega e manifesta. O silêncio é, muitas vezes, um espaço ampliado para que a palavra renasça em toda a sua força. 

Dizer que os grandes amores nos deixam sem palavras é outra forma de despertar novos sentidos para as mais antigas, descobrir outras que ainda não conhecemos e, quem sabe, inventar uma ou outra completamente nova no contexto. Consequentemente, dou por mim a reflectir na expressão “amar em silêncio”, o que não significa ausência de palavras, como tudo, este conceito pode ter leituras positivas e negativas; nos momentos de grande completude amorosa é possível fazermo-nos entender e tornar mais intensos os gestos do amor em silêncio, por exemplo; ou, pelo contrário, quando não somos correspondidos o silêncio pode ser a nossa ferida amorosa. Não separo as palavras do silêncio, nunca.  Os poetas são, para mim, os mestres deste jogo infinito, quantas vezes são mais as palavras que ressoam no silêncio de um verso do que as que nos são dadas a ver na escrita. 

Quando começamos a pensar numa língua – alfabeto, palavra, frase, gramática – percebemos que a construção da linguagem e o amor têm grandes afinidades, por isso, a poesia é, para mim, entre todas as artes, o grande espelho da fascinante e enigmática trama amorosa. Talvez por tudo o que há de indizível na natureza humana, mesmo sabendo das grandes dores que só o amor traz consigo, sejamos impelidos para a busca deste encontro único com o outro,  muito para além do prazer sexual, que sendo natural não consta que seja causa de morte em caso de privação. Se escolhemos o risco de nos perdemos em alguém por quem nos apaixonamos, fonte de vida que nos mata a sede por breves instantes, ou não fosse o amor-paixão, por natureza, insaciável, pergunto-me porque tememos tanto dizer o que sentimos? 

Em certas alturas da vida há pessoas que desistem e fogem da paixão e do amor, com o medo de sofrimentos maiores ou iguais aos que vivenciaram (dependência, perda, etc.), porém, a recusa prolongada desta busca, mesmo que seja consciente, não raras vezes, faz-nos sentir menos vivos, como quem carrega um espírito aborrecido, a alma encolhe-se e os sentimentos tornam-se frouxos,  passamos a viver nos arredores da vida, numa espécie de morte a fingir. A minha experiência diz-me que não vale a pena procurar nem fugir no que diz respeito à paixão ou ao amor, refiro-me ao compromisso amoroso com alguém, que a instabilidade própria do estado apaixonado não pode ser confundido com desrespeito ou abuso emocional, mas o pior mesmo é mentirmos a nós próprios, esvaziando as palavras de sentido no uso que fazemos, ou não fazemos, delas com aqueles a quem realmente amamos. E, já agora, dar o dito por não dito é desonesto, mas o contrário, às vezes, pode ser tão ou mais fatal numa relação amorosa.


Aldina Duarte —— Fadista, letrista

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