Miguel Guilherme

ATOR

Nesta videochamada vejo muitos livros atrás de ti. Estás a conversar na tua biblioteca?

—— Estamos no meu quarto. Tenho a biblioteca no quarto. Qualquer dia vou ter de arranjar outras estantes para colocar noutro sítio, porque estou a comprar muitos livros. De há um ano para cá, com isto da pandemia comecei a comprar bastantes. Eu já os comprava, mas comecei a comprá-los mais. Ficção, romance, novela. Alguma história. 


Alguma literatura mais erótica?

—— Comprei há uns três meses a antologia da poesia portuguesa erótica e satírica selecionada pela Natália Correia. [Retira da estante um volume] E tenho também este livro muito antigo “As poesias eróticas burlescas e satíricas”, do Bocage. Isto era para aí do meu bisavô, é do fim do século XIX. Se vires bem, tem um falo [dourado] na capa. E como era proibido, diziam que era impresso em Bruxelas. Mas não era, era feito cá. [risos] E também tenho alguma banda desenhada erótica, que comprei nos anos 90, do [Milo] Manara e do [Hugo] Pratt.

A forma como olhas para o amor romântico mudou ao longo dos anos?

—— Mudou bastante. Tornei-me bastante mais implacável. [risos]

A vida e o amor não são como nos livros…

—— Exato. O amor não é como nos livros, mas sempre tive esse lado romântico. Tenho sempre tendência para ver as coisas de um ponto de vista romântico e não de um ponto de vista objetivo.

Como se traduz esse olhar mais romântico?

—— É um olhar que não tem em conta a objetividade da vida. Ou seja, é um olhar platónico. Baseado não em factos, mas em pressupostos idealistas. E nesse sentido sempre vi a amizade assim, como o amor. Mas o sexo já não. Para mim o sexo tem mais a ver com sexo. Nunca liguei o sexo ao romance. Embora me tenha apaixonado por pessoas com quem fiz sexo. Mas para mim o sexo é outra coisa. É outra água. Podem ser outras águas. Há pessoas que só conseguem fazer sexo quando se apaixonam. Eu não. O sexo para mim pode ser completamente dissociado do amor romântico. Mas por muito casual que seja, tem sempre qualquer coisa de fundamentalmente afetivo. Isto tenho a certeza. Não só em relação a mim, mas em relação a toda a gente. Mesmo que seja casual. 
E vou mais longe. Talvez até com uma prostituta… Não sei, porque nunca experimentei. Tem sempre a ver com a vontade de estarmos com a outra pessoa. Ou de não estarmos sós. Ou de nos fazer esquecer a nossa solidão. Portanto, é sempre uma relação afetiva.


Mas no limite, nesse ambiente que referes, há alguém que se serve do corpo de outra pessoa para ter prazer…

—— Acho que estás a ser demasiado romântico. Porque alguém ao se servir, também está a servir a outra pessoa. Porque, à partida, essa relação é uma relação consensual. Portanto, quando alguém te dá prazer, também queres dar prazer à outra pessoa. Portanto, sim, pode haver uma relação de interesse da parte das duas pessoas, mas não significa que para além da troca de fluídos, não haja trocas de outras coisas. A mim pessoalmente já me aconteceu isso. Ou seja, coisas que duraram uma noite, ou duas, e que eu nunca mais me esqueci. E que não têm de ter necessariamente continuação. Mas também já me aconteceu o contrário, viver e apaixonar-me por alguém de uma forma romântica. E aí o sexo também ganha uma série de outros contornos.

Achas que o sexo é melhor quando se ama? Ou não tem de ser assim?

—— Não tem de ser assim. 

Há de facto bons amores em que o sexo não é o principal ou é mesmo posto de lado…

—— Sim, há casos em que o sexo não é o mais importante. Não sou especialista, mas há qualquer coisa de não racional que leva a duas pessoas que se dão muito bem a fazer amor. E outras não. Portanto, é qualquer coisa que não controlas. É instinto, é a maneira como vês a libido, como te aproximas, como beijas…

Já o amor não é instinto. É construção…

—— O amor é construção. Nesse sentido o amor é mais interessante. Porque implica um maior esforço, uma maior coragem. O amor é coragem acima de tudo. E amar alguém sem estar à espera de algo em troca. No fundo, isso é o arquétipo do amor cristão. Amar sem esperar nada em troca. Foi o que Cristo fez, não é?

Sendo que isso é muito difícil de colocar em prática num plano de amor romântico…

—— É. Há outro tipo de expectativas da parte dos parceiros, talvez mais exigentes, do que numa relação de amizade. Não me perguntes porquê…

A forma como encaras a sexualidade tem mudado muito ao longo dos anos?

—— Não acredito que tenha mudado. A nossa sexualidade forma-se aos sete anos. Como tudo o resto. A nossa sexualidade não provém só do racional. Provém, sei lá, do subconsciente.

Mas a forma como lidamos com os outros vai mudando com os anos… 

—— É possível ires apurando uma maneira de fazer melhor amor. Apurando uma maneira de ser mais amigo, de explicar melhor as coisas. Pode-se aprender a fazer melhor amor. 

Achas que te tornaste melhor amante com a idade?

—— Não depende de mim. Depende sempre da outra pessoa. Essa questão do melhor amante depende da apreciação da outra pessoa. A outra pessoa é que acha se eu sou bom amante ou não. Eu aí não sou nem tido, nem achado para a ocasião. Isso é uma pergunta que nem se põe para mim.

Mas a tua atitude mudou nesse campo?

—— Posso dizer que se calhar tenho mais calma. Mas basicamente faço as coisas como sempre fiz. Ou seja, é quase inato. Não é? Mas se sou melhor amante? Não sei. Isso não depende de mim julgar. Nunca depende.

E a equação muda consoante mudas de parceira…

—— Por isso mesmo. O teu cheiro, o teu toque, a tua saliva, a maneira como agarras. É isso que faz uma espécie de elo erótico entre as pessoas. Não é tanto o que é que eu penso da vida. Ou se gosto de pintura impressionista. Ou outra coisa qualquer.


E quanto à idade. O desejo é algo que pode ser estimulado a vida inteira?

—— Acho que sim. Talvez haja alguns problemas de nível técnico com a idade. Como é óbvio…

Mas não têm de ser barreiras…

—— Agora não. Porque cientificamente com o aparecimento do Viagra, e não sei quê, esse tipo de coisas desapareceram. Portanto, acho que é a pessoa manter-se jovem no sentido de continuar a gostar e a amar.

Como é que nos mantemos jovens nesse aspeto? Com curiosidade? É que há a ideia de que com a idade vamos perdendo o entusiasmo de tudo…

—— E vamos. Não tenhas a mínima dúvida de que vamos perdendo o entusiasmo de tudo. Não podemos é deixar que isso aconteça em demasia. Acho que não há barreiras hoje em dia para amares. É uma questão de te manteres, acima de tudo, interessado e curioso em relação à vida. E aí as coisas acontecem. Evidentemente uma sexualidade aos 60, não é a mesma coisa do que aos 20 ou 30, mas é sexualidade. Absolutamente. E pode ser tão ou mais compensatória.

És da opinião que a sexualidade está em tudo? Na forma como andamos, comemos, falamos, olhamos?

—— Tudo. A sexualidade está em tudo. Quando tinha 17 anos, nas alvoradas do 25 de Abril havia um autor que se editava muito e que depois desapareceu, o [psicanalista] Wilhelm Reich. Era uma espécie de revolucionário marxista, mas anti-estalinista, que ia buscar umas coisas ao Freud. Era muito maluco e tinha um livro muito conhecido que se chamava “Escuta, Zé Ninguém!” E criava ali uma simbiose entre a luta de classes e o sexo. Ou seja, é uma maravilha. [risos] E nesse sentido acho que sim, o sexo está em tudo. Mas não lhe podemos estar sempre a dar muita importância, porque senão é uma chatice.

E para um ator e criador essa dimensão da sexualidade é importante em palco para a composição das personagens?

—— Na representação, além de representares o papel, tens que ser interessante. Não vale a pena fazer uma coisa apenas certinha. Tens que por lá mais do que a personagem. Nesse sentido pode ser sexual também. Não é obrigatório que seja. Mas, aliás, vês carreiras de homens e mulheres que foram sobretudo baseadas no seu sex-appeal. 


O cinema tem vivido muito à custa desse clima…

—— Sim. E quando eu vou ao teatro, o que me fascina além de um ator ou atriz estar a representar bem o papel, é o ‘power’ que tem em cena. O poder de atração que se estabelece entre essa pessoa e o público.  

Há algo de sexual nisso?

—— Talvez. Mas não iminentemente sexual. As pessoas não ficam com uma ereção a ver. A não ser que seja para isso. Mas sim, talvez haja qualquer coisa de sexual. E há umas pessoas que o têm mais do que outras. Há atores e atrizes sobre os quais não consegues tirar os olhos.

Miguel, estás atualmente com os cabelos compridos e brancos, uma barba cheia e grisalha. Estás com uma figura muito bem montada…

—— É uma imagem de Platão. [risos]

É verdade que ao contrário das mulheres, os homens ficam de facto mais charmosos e atraentes com a idade?

—— É verdade. As pessoas dizem isso. As mulheres sofrem mais com a ditadura da idade. Muito mais.


E sentes na pele que atingiste o ponto?

—— Não é que tenha montes de mulheres à minha volta, mas sinto que tenho mais hipóteses do que uma mulher da minha idade. Tem a ver com preconceitos, com a maneira como o papel da mulher ainda é visto, mas está a mudar aos poucos. E está a acontecer uma coisa que tem muita graça: Antigamente os tipos arranjavam umas gajas mais novas, e agora as mulheres estão a fazer a mesma coisa. Acho isso super interessante. Vai-se esbater tudo. Gosto de ver que essa ditadura muito injusta sobre a mulher se está a esbater. Tem a ver com a luta das próprias mulheres, a não deixarem que isso aconteça. E a cirurgia plástica vai cada vez mais ‘bombar’. Portanto, as pessoas tendem a parecer e a ser cada vez mais jovens. Não sei onde isto vai parar. Talvez à imortalidade. [risos] 


Neste confinamento vi muitas mulheres a assumirem os brancos no cabelo, como uma libertação…

—— Sim. Às vezes há uma narrativa que nos é imposta de fora e que nós tendemos a assimilar. Tens de desconfiar da narrativa que te contam. E colocar a pergunta: “Mas porquê?” E ao desconfiares dessa narrativa acabas por encontrar outras maneiras de estar, que não têm nada a ver com a ideia de que a partir de uma certa idade uma mulher já não presta. Ou que quando se acaba a menstruação já não têm prazer sexual. Narrativas e narrativas que são falsas. E as pessoas, tanto homens como mulheres, tendem a ‘amochar’ perante essa narrativa. Mas quando deixam de o fazer constroem-se outras narrativas. E assim vamos andando.


Entrevista de Bernardo Mendonça.

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on email
Share on google