CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Rui Dias Monteiro

Bem boas as broas de mel

Dificilmente acredito em teorias da conspiração. Como nas receitas, é importante conferir as fontes. Já no sexo, dependendo das pessoas, senti tesão e nenhuma paixão, pena e algum carinho, tanto cuidado e demasiado amor. Isto apenas para listar algumas possibilidades nem sempre excitantes à partida. É que os temperos são fundamentais no desejo. Pode ajustar-se aqui e ali algum toque, destacar fantasias, deixar repousar os tempos entre orgasmos, ou aceitar e misturar a explosão de vontades. Tantas são as possibilidades para variados resultados bem bons.  

Mas falemos de gosto e broas de mel. São relativos a cada pessoa, parelha ou grupo. É de comunicação e fluidez que se trata. Como partilhar os nossos limites em momentos que às vezes são instantes e podem gerar mal entendidos? Nem sempre encontramos a maneira mais eficaz. No meu caso, não tolero dor, perigo ou falta de liberdade. E não digo isto com moralismo algum. Só não quero. Houve alturas em que gostaria que me tivessem respeitado a pausa, a falta de energia, o pensamento concentrado. Nada numa relação amorosa ou sexual pode ser forçado. Assim como o ponto em que algo queima precisa ser gerido e aprendido. Por exemplo, imagine-se um forno a lenha. Esse lugar vai receber um conjunto de broas num tabuleiro. Broas essas que foram amassadas homogeneamente, com farinha, açúcar, azeite e mel. As bolas de massa resultantes são ainda pinceladas com ovo antes de entrarem no forno já quente. Depois é esperar que estejam douradinhas. É fundamental a gestão do tempo e da rotina nas broas de mel. Por que não seria também numa relação? Em qualquer que seja. Reparem como tudo poderia correr mal se o processo fosse atalhado. Ou até se quiséssemos que corresse bem à primeira sem qualquer ajuda ou conselho por alguém experiente.

Também no sexo precisamos aprender com tentativa e erro. Quer para repetir, fazer melhor, ou simplesmente para fazer diferente. Já para não falar nas conclusões precipitadas.

Sei que tudo isto parece muito óbvio, mas repare-se no vago que é aprender a gostar. Quando era criança só comia broas de mel com manteiga ou doce de tomate. Hoje em dia nem é preciso, como-as assim mesmo secas. O mínimo que posso pedir é que isso seja aceite e que se parta daí para a troca.

Voltando às teorias da conspiração, elas são apontar de dedo demasiado simplista para uma suposta verdade. Quase sempre culpam o outro, por muito complexos que sejam os seus meandros. São piores do que atirar areia para os olhos.

Quase toda a gente concordará que não há receitas para a chamada química ou física sexual. Talvez menos concordem que é preciso paciência. Tempos estranhos estes em que sexo é tudo menos contemplação, daquela capaz de ficar minutos largos a reparar no arrepio da pele. Ou aceitando maneiras e corpos diferentes dos nossos. Claro que é mais fácil ter vontade do que já gostamos de gostar. Mas podemos deixar-nos surpreender.

Pessoalmente, nunca consegui saber com quem encaixava sem testar alguns detalhes íntimos. Acredito na beleza poética da intimidade. E longe de mim querer o amor romântico como única opção de realização. Como homem que se relaciona com outros homens, apenas quero o direito a essa hipótese. De resto, é um mundo. Não se trata apenas de aprender a gostar de comer broas de mel sem doce. A liberdade não é um fim em si, é apenas o princípio básico para com o outro.


Rui Dias Monteiro —— Artista visual, fotógrafo e poeta
Rui Dias Monteiro —— ilustração

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