AS PARTES PERTURBADORAS

Cartas para a minha filha

Cláudia Lucas Chéu

18.04.2021

Francisca, filha, assim vai a vida cá em casa: um pandemónio durante a pandemia. Mais para mim do que para ti. Esta semana, vieste contar-me que os teus amigos rapazes te disseram no recreio que «a tua mãe é lésbica». Fiquei aflita, sei bem como as pessoas podem ser cruéis sobre este assunto, sejam miúdas ou graúdas. Perguntei-te o que respondeste, com receio de que tivesse sido complicado, mas tu revelaste uma desenvoltura imprópria para a idade. «Disse que não eras lésbica. Expliquei-lhes que gostavas de homens mas que te tinhas apaixonado por uma mulher.» Fiquei orgulhosa de ti, da resposta que lhes deste, porque corresponde exatamente àquilo que se passa. Contudo, é uma resposta de entendimento difícil para muitas pessoas, mesmo para as mais crescidas e que se consideram informadas. Por isso insisti para saber a reação deles. «E o que te disseram?» «Nada, mãe. Acho que não perceberam. Só o meu namorado é que disse “Ah, okay!”. Os outros não responderam e desataram a correr e a brincar.»

No meu tempo, e com a tua idade, quando dizíamos aos adultos que tínhamos um namorado, ralhavam ou gozavam connosco: «Tu namoras é com o prato da sopa.» Pois bem, vínhamos no carro no regresso da escola, e continuaste a ouvir música pop como se o assunto estivesse encerrado. Mas eu tive de te fazer novamente a pergunta que já te fiz algumas vezes, porque talvez o desconforto seja mais meu do que teu. «A ti incomoda-te que a mãe goste de uma mulher?» «Não, mas preferia que namorasses com um homem.» Sei, porque já me explicaste, que preferias ter um padrasto porque, como me disseste, é o «normal». Na tua escola, e de forma assumida, há apenas mais uma criança que vive com um casal homossexual. Explico-te, então, que aquilo que consideras «normal» é apenas uma questão de número, de estatística, e que não há nada de anormal num casal homossexual. E da forma mais simples possível, relembro-te que não pode haver nada de errado entre duas pessoas adultas que se amam, sejam ou não do mesmo género. Que amar é amar, e que não se entende como é que alguém pode condenar isso.

Concordas comigo e perguntas se podes subir o volume da música da Ariana Grande, que está a dar na rádio. Percebo que a música não é uma evasiva, vejo que não te aquece nem te arrefece este assunto da homossexualidade; talvez a maior preocupação esteja do meu lado. Cresci com essa conversa da anormalidade, e uma vez, numa sessão de psicanálise, disseram-me que sofria de homofobia interna. Fiquei ali deitada no divã sem retaliar, mas ofendida com o que tinha ouvido. Discordei em silêncio e em absoluto, não me sentia homofóbica, muito menos em relação a mim própria.

Contudo, de cada vez que, por exemplo, vens com estas conversas sobre os teus colegas da escola, fico aflita. Esse peso da «normalidade» e de te querer dar uma vida «normal» cai-me sub-repticiamente sobre os ombros. É inevitável, há muitos séculos que vivemos sob uma homofobia estrutural, por isso, por mais racional e culto que seja o nosso pensamento, há coisas que continuam a pesar. Faço de tudo para que nunca te pese em ti. E que, pelo facto de estares a crescer com uma mãe que pode ser considerada «anormal», sejas uma pessoa mais livre e sem preconceitos. O fundamental é que vejas o importante — a mãe tem alguém que a ama e que te ama a ti; uma pessoa muito especial e que calha ser mulher. O que pode estar errado nisto? 


Cláudia Lucas Chéu —— Escritora, poeta, dramaturga

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