crónica —— dentro de mim

Marta Crawford

Sobre o meu ventre como parágrafos

Decidiu desaparecer da sua vida por uns tempos. Estava cansada de rotinas, de trabalhar que nem uma louca. Tinha, pelo menos, dez braços a sair-lhe do corpo, sem mãos a medir para tudo. Marcou as férias. Não contou nada a ninguém. Três semanas.

Quando chegou o dia, fez a mala: quatro pares de calças, várias t-shirts, um vestido sexy, botas e chinelos, e lingerie q.b.

Para trás, deixou apenas uma nota à família com o roteiro da viagem e partiu.

Chegada ao aeroporto, despachou a mala e guardou consigo a mochila onde tinha todo o material fotográfico. Não queria correr riscos. Depois de uma escala em Amesterdão, seguiu direta para Kilimanjaro International Airport.

Embora tivesse dormido o tempo todo, a viagem pareceu infinita. Primeira paragem: Ngorongoro Conservation Area. Enquanto atravessava uma parte da Tanzânia do Norte reparou nas raparigas que transportavam baldes e vasilhames de plástico com água às costas. Impressionante! Não parecia haver saneamento nem água canalizada, as estradas eram de terra batida e as casas autênticas barracas. Engoliu a seco. 

Chegada ao lodge, tudo mudou. Estava no paraíso. Mostraram-lhe os seus aposentos. Tudo era belo. Até a grafonola parecia ter saído de um filme. Despiu-se e enfiou-se na banheira exterior, no deck do seu quarto. Daí podia encarar o infinito. Deviam ser 18 horas, talvez mais. Estava no meio de uma savana sem fim. Com a água até ao pescoço observou as zebras e os gnus que se aproximavam lentamente. Sentia-se um hipopótamo só com os olhinhos de fora a observar. Observava-os com um misto de fascínio e de medo. Nunca tinha lido nada sobre zebras e não sabia se eram verdadeiramente selvagens. Duvidou que fossem. Pareciam amistosas com aquele rosto afável e tonto.  Nunca tinha visto tantas zebras juntas a olhar para si – estava completamente nua – dentro de uma banheira de pés de madeira – no fim do mundo. Sentia-se de tal forma hipnotizada, que emergiu ao ouvir o relinchar daqueles animais. Sem saber porquê, começou a relinchar também, cada vez mais alto, embriagada com o pôr do sol e com todo aquele cenário inimaginável. Completamente louca. Nesse preciso momento, reparou no Massai agarrado a uma lança, a olhar para si, de trajes vermelhos e com um sorriso que mostrava todos os seus dentes brancos. Aquele homem, negro e esguio, parecia irreal. Quando levantou a lança, todos os animais puseram-se em fuga. Agora, era apenas ela, completamente nua e ele, um homem desconhecido que sorria e lhe dizia num excelente inglês: You are beautiful.

Não sabe se corou. Desviou o rosto e quando voltou a olhar em frente, já não estava lá ninguém, nem zebras, nem gnus, nem Massai. Apenas uma lua cheia gigante que se tinha apoderado do céu.

Tinham-lhe dito que nenhum hóspede podia circular pelo espaço, sem ser acompanhado por um Massai armado, por causa dos animais selvagens. Obedeceu. Quando chegou à esplanada da restauração, ficou boquiaberta com o cenário – lanternas e fogueiras espalhadas por todo o lado criavam um ambiente totalmente inesperado. Sentiu-se num filme de exploradores no Egipto. Nunca tinha visto nada assim. Sentaram-na na mesa e serviram-lhe um aperitivo, depois um copo de vinho branco, depois um de tinto, depois um whiskey, e depois qualquer coisa que lhe explicaram que acalmava a alma. Os seus sentidos fluíam, fugiam-lhe da cabeça. Ia jurar que começara a ver zebras a dançar e gnus a tocar guitarra.  Recorda-se que no regresso ao seu quarto, foi novamente acompanhada por um Massai. Quando este lhe abriu a porta caiu. Não sentiu o embate do corpo no chão de madeira, nem que a despiram ou que a deitaram naquela cama imaculada. Quando acordou estava nua, deitada naqueles lençóis brancos macios de linho e por baixo daquelas exuberantes redes anti mosquito, que criavam um ambiente sublime. O gramofone tocava The carnival of the animals. Era a Karen Blixen do Out of Africa

Em frente à sua cama de pé, estava o mesmo Massai daquela tarde com a sua lança e as vestes vermelhas. Sentiu-se excitada, como há muito não sentia. Já passara algum tempo, desde que estivera com alguém e aquele homem negro, esguio e de dentes brancos estava parado no topo da sua cama a observá-la. Começou a acariciar-se para ele. Tocou-se demoradamente nas coxas, como se escrevesse um conto com os dedos – as palavras transformavam-se em frases que avançavam sobre o ventre como parágrafos. Depois, de forma mais intensa, friccionou a sua vulva em círculos, sempre a olhar para aquele homem que se mantinha hirto, firme e imóvel. A excitação era gigantesca, perturbadora, mas o sorriso daquele homem sabia-lhe a gengibre. Imaginou-o a entrar dentro de si e a desventrá-la como um animal. Sentiu a intensidade do seu corpo, agora mais tenso e eriçado. Sentiu aquele animal descontrolado a cavalgá-la. Aquele homem selvagem e rude estava nos braços dela. Era demais.  Explodiu. Os seus pedaços estilhaçaram-se por todos os recantos daquele quarto. 

O despertador tocou. Quando acordou, estava encharcada em suor na sua cama de casal. Lembrou-se que era sexta feira-santa, felizmente hoje não teria de ir trabalhar, tinha o almoço de família. Suspirou.


João Vasco —— ilustração

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