CRÓNICA —— O LUGAR DO OUTRO
Bernardo Mendonça

A pontaria de Mariana não falha

Os campos dourados de feno, no Alentejo profundo, foram a paisagem no caminho para esta história marafada com que me esbarrei há uns anos. Junto à estação de comboios de Ourique, em Ourique Gare, eu e o meu amigo e repórter fotográfico Tiago Miranda demos de caras com a Mariana Maria, conhecida na região como “Mariana Campaniça”. Estava sentada à porta da sua taberna Café Primavera, imponente, com um mata-moscas de plástico na mão. O sol a queimar, as moscas a picar e a romper o silêncio. Plaft! Uma já foi. A pontaria de Mariana não falha.

Parecíamos ter caminhado tanto que chegámos atrás no tempo, até este lugar do antigamente, onde ainda se vendem rifas para canivetes e estão expostas garrafas originais de “pirolito”. Mariana, armada com um mata-moscas, é a “Calamity Jane” das pradarias alentejanas e apesar de mais quebrada pela idade, não há quem faça farinha com ela, sob pena de tudo acabar à bala com a espingarda que guarda atrás do balcão.

Durante décadas, Mariana foi a única mulher portuguesa com carta de caçador. E talvez também tenha sido a primeira da região a desafiar cruzar as fronteiras do género. Desde jovem que usa cabelo curto e se veste com trajes masculinos, a desempenhar tarefas de macho, a disputar a força dos bravos.

Mariana nunca mudou de nome, mas desejaria ter nascido rapaz e afirmou-se à sua maneira da maneira que quis e sentia. Nunca deixou que lhe faltassem ao respeito. Nem que fosse à lei do sopapo e da cajadada. 

Na sua vida teve só um companheiro, que a abandonou com três filhas pequenas nos braços. Hoje “Mariana Campaniça” orgulha-se dos seis netos, seis bisnetos e dois trinetos. E no seu estabelecimento não resiste a quem a desafia a cantar ao despique ou ao baldão. Modas ‘bonitas’ que improvisa para animar os clientes e os amigos. De mata-moscas na mão, Mariana leva-nos para a sua infância, para se contar melhor. Permitam-me que desapareça enquanto narrador. Deixem-se levar pela voz rouca e grave de “Mariana Campaniça”:

“Quando era gaiata atirava aos passarinhos com uma fisga. O passarinho ao abrigo de uma árvore, eu esticava o elástico e ‘pum’, acertava-lhe com uma pedrinha e ele caía. Aos 30 voltei a atirar, mas desta vez com uma espingarda. Fui um dia a Ourique e disse a uns homens “Queria tirar a licença de caça. Posso tirar?” E eles: “Se quiser, pode. Tem é que ter cuidados com a arma.” Três dias passaram e fui à caça. Dei-me bem. Durante mais de quarenta anos fui a única mulher com carta de caçadora, de papel passado. Atirei a perdizes, lebres, coelhos. Disparava a tudo o que saía à minha frente. Tinha pontaria e era canhota. Via o que os homens faziam e fazia igual. Dava-me perfeitamente no meio deles. Respeitaram-me sempre. Queriam ir mijar e iam fazê-lo para outro lado. Eu ia para trás de um sobreiro. Sempre me vesti assim com roupas de homem. Ando trajada como gosto e como quero. É assim que me sinto bem. Nunca usei saia ou sapatos altos.

Éramos gente pobre. Comecei a guardar gado logo de pequena. Cuidava de porcos, vacas, ovelhas, bestas. Carreguei água, ceifei, mondei. Andei pouco tempo na escola. Apenas uns meses. Um dia apanhei uma data de reguadas da professora por uma mentira que uns miúdos armaram e desalvorei. Mas levei a cadeira onde me sentava, era da família. Disse à minha mãe que se me obrigasse me atirava para o Poço Branco, que ficava no caminho. Só depois, mais tarde, com as minhas filhas, é que aprendi a escrever o meu nome, a escrever a minha morada e a fazer contas. Nunca me enganei numa conta. Tiro-lhe a prova dos nove. Tinha 11 anos quando calcei pela primeira vez um par de sapatos. Eram uns sapatos grosseiros de cabedal, com duas ilhoses e um cordão. Aos 14 anos fui a um baile a Vale Garvão com eles, mas não os aguentava de maneira nenhuma. Descalcei-os e tive de os trazer às costas. A sola dos meus pés era uma casca grossa. Calos tão duros nos pés que não havia cardos que entrassem neles. Aos 17 anos juntei-me ao meu primo-irmão, o José Joaquim. O pai dele era irmão do meu pai. Demos em conhecer e lidar. A minha mãe não gostava desse nosso ajuntamento. Achava que se tivéssemos alguns moços saíam parvos. Tive quatro filhas, uma morreu à nascença, mas nenhuma das outras saiu parva, graças a Deus. Estivemos juntos nove anos. Um dia ele abalou para o Algarve sem me dizer nada. Deixou-me com três filhas nos braços. Uma de 4, outra de 3 e a mais nova com 1 ano de idade. Passei dificuldades. Fui morar para a casa dos meus pais. Ganhei a vida a fazer cavalos [montes] de terra numa horta. Com uma enxada fazia um cavalo pelo meio das pernas. Trabalho de homem. Pagavam-me ao dia. E ajudava uma senhora numa padaria. Amassava cinco arrobas de pão (14 quilos cada). E ela dava-me dois “panitos” para as moças comerem. 

Fui sempre rija a lidar com os homens. Brincadeiras, nada. Muita gente confundia-me com um deles. Porque sempre usei calças, coletes. Uma vez entrei enganada numa boîte. Depois disse aos meus compadres: “Vocês agora não me chamam pelo meu nome, que isso é uma vergonha.” Então deram em chamar-me Manel. Veio logo uma rapariga sentar-se em cima da minha perna. Era a mais bonita. Tive pontaria. “Agora, o que é que eu faço à minha vida?”, pensei. Começo a meter-lhe a mão aqui por baixo, a mexer-lhe nas pernas, nas partes. Ela gostou. Ai gostou, gostou. Gemeu. Não fugiu. E eu disse-lhe logo: “Deixa-te estar aqui à minha beira que hoje és minha.” Assim estivemos um bom bocado. E depois dançámos muito juntinhos. Fartei-me de dançar com ela a noite inteira. No outro dia, contaram-lhe logo: “Dançaste com uma mulher toda a noite, não tens vergonha?” E ela: “Eu? Não. Era um homem. Senti que era um homem.” Foram muitas dessas ao longo da vida. Gostaria mais de ter sido homem e não mulher. Sentia-me mais à vontade nesse papel. 

Esta taberna tem sido a minha vida há 31 anos. Graças a Deus não devo nada a ninguém. Nunca tive medo de nenhum homem que aqui entrou. Sempre fui alta, forte e entroncada, a pesar acima de 90 quilos. Quando era preciso pegava nos sujeitos pelo colarinho e pelo cinto e jogava-os como bonecos de palha para a rua. Agora estou aqui com o meu neto, que me ajuda. Gosto desta vida.”

Plaft! Mais uma. A pontaria de Mariana não falha.


João Vasco —— Ilustração

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