AS PARTES PERTURBADORAS

Cartas para a minha filha

Cláudia Lucas Chéu

11.04.2021

«Mãe, sabes porque é que os homens têm os rabos achatados e as mulheres não?» Nem sequer tive tempo de responder, concluíste logo: «Porque os homens passam muito mais tempo sentados.» Querida filha, ri-me, claro. Parecia que tinhas acabado de inventar uma piada misândrica, e tu nem sequer sabes o que é a misandria. Como não te quero ignorante nestes assuntos, vou explicar-te: a misandria é o ódio ou o desprezo pelo género masculino, seja expresso por mulheres ou pelos próprios pares do género. Mas, tal como na misoginia (o ódio dos homens pelas mulheres), a aversão concentra-se no género oposto. Sentir aversão, ódio ou desprezo não são coisas que nos assistam, felizmente. A mim e a ti. Não odiamos ninguém, independentemente do seu género. Mas sabes uma coisa, querida filha? Por mais politicamente incorrecta que possa parecer a tua piada, e errada do ponto de vista da biologia, a tua teoria de géneros sobre a forma dos traseiros humanos pôs-me a pensar onde tinhas ido buscar essa ideia.

Talvez tenhas reparado que os homens que conheces passam mais tempo sentados em casa. Salvo raras excepções, claro, como a do teu avô, por exemplo, que parece um homem com bicho-carpinteiro no rabo. Penso que não há nenhum estudo sobre isto mas podemos fazê-lo as duas. Basta observarmos o universo das casas que conhecemos. Enquanto as mulheres andam de um lado para o outro e têm sempre isto ou aquilo para fazer, mesmo aquelas que têm empregadas domésticas, os homens parecem maioritariamente continuar a achar que a lida da casa se faz sozinha. Obviamente, estou a fazer uma leitura maniqueísta a partir da tua piada; os bons e os maus do lar, ou melhor dizendo, os rabos bons e os rabos maus, medidos pelo índice de preguiça. Não é fácil ser assim tão básica, mas muitas vezes consigo. Não tens de me agradecer. Fiquei também a pensar que verás mais diferenças entre homens e mulheres, além das óbvias, das biológicas, e quero dizer-te que essas diferenças não interessam nada. Desde cedo que te tenho incentivado a encarar todas as pessoas de igual para igual, sem olhar a géneros. Ainda não chegou a altura de te explicar verbalmente, mas fica aqui escrito que o género é uma construção social, um acto performativo, como diz a Judith Butler. Depois empresto-te os livros dela, quando tiveres idade para os entender.

Resumindo, quero que guardes esta piada dos rabos redondos e achatados como prova de uma certa ingenuidade, de um olhar puro. Os miúdos olham para tudo com os olhos limpos, tecem teorias que não são conspurcadas pelo olhar colectivo da sociedade. E isto é bom, hei-de incentivar sempre esse olhar pueril. Os meus olhos já estão demasiado corrompidos. Nunca me ocorreria tal pensamento ao olhar para rabos humanos. A minha apreciação aos quarenta e tal anos está ao nível animalesco primário. Fica a saber que a tua mãe não gosta de olhar para rabos de uma forma geral, mas aprecia bastante o rabo da pessoa adulta que ama sem lhe medir o género, apenas porque o seu rabo é bem bonito. 


Cláudia Lucas Chéu —— Escritora, poeta, dramaturga

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