João Soares

EDITOR LITERÁRIO E POLÍTICO

A forma como olha para o amor romântico mudou muito ao longo dos anos?

—— No essencial não se alterou muito. Quer dizer, estas coisas têm sempre um bocado de auto elogio que me chateia e pode parecer uma coisa de imodéstia, mas eu continuo a ser um tipo profundamente romântico. Sou um fã da visão romântica das coisas. A primeira condição para termos uma forma boa de abordar seja o que for, seja o confinamento, o amor ou a amizade – que, às vezes, ainda é mais exigente que o amor – é estarmos de bem connosco próprios, para podermos estar de bem com a vida e com os outros. Continuo a acreditar profundamente no romantismo.


Mas nós vamos mudando ao longo da vida. Nada mudou em si na forma de olhar o amor?

—— Há coisas para as quais talvez possa ter agora menos ilusões do que tinha há uns anos. Não me lembro bem das primeiras paixonetas que tive enquanto miúdo, mas com um bocado de esforço a gente chega lá todos. Houve umas coisas que me marcaram e, por vezes, ainda cintila alguma coisa na cabeça.

Refere-se aos primeiros amores?

—— Os primeiros, os segundos e os terceiros. Mas também não sou propriamente um D. Juan.

Mas insistimos, a maturidade faz com que encaremos o amor romântico de outra maneira?

—— Como disse, talvez haja algumas ilusões iniciais que se perdem, na forma de olhar para as coisas. Pode haver enganos. Todos nos enganamos. Só havia um senhor que dizia que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, e não me parece que tenha tido um grande currículo amoroso. Faltava-lhe o canto IX dos Lusíadas. A Ilha dos Amores, justamente. Tinha idade para ter estudado os Lusíadas no tempo de Salazar, que é uma coisa que é sempre bom lembrar. Aí está uma coisa que define o regime anterior, que só os mais velhos se lembram. Eles antigamente faziam dos Lusíadas uma espécie de segunda bandeira nacional, mas depois cortaram-lhe o Canto da Ilha dos Amores, na versão comprada para as escolas…

Disse que era um homem romântico, como se traduz esse romantismo? É um romantismo teórico ou comportamental?

—— Sou um fã da associação de diabetes. E, portanto, tenho de ter cuidado com os açúcares e com as doçuras. Mas sou também um apaixonado pelas doçuras. Acho que nas relações entre as pessoas, sejam elas de que natureza forem, a doçura é sempre muito importante. Evidentemente que há pessoas mais doces e outras menos doces. Como há pratos mais ou menos doces. É preciso saber com o que é que se lida. E há temperos que se podem ir fazendo ao longo do tempo. O importante é dar para receber. Isso é uma coisa que tenho para mim há muito tempo na vida. Mas, às vezes, não se recebe logo à primeira.

E com a idade descobrem-se outros temperos?

—— Pois, exatamente. E eu, por exemplo, sou um fã das pimentas, das coisas muito apimentadas. Em todos os sentidos.

O que mais o encantou na sua mulher?

—— Bem, foi um processo de paixão. Olhem e tem um lado picante. Houve uma componente de infidelidade conjugal, porque eu era casado com outra pessoa e essas coisas também têm um lado desagradável. Mas acontecem. Acontecem a todos. 

Tudo começou por uma paixão arrebatadora…

—— Sobre isso, recordo-me do que me disse um primo de quem gosto muito, que é o Mário Barroso, um grande cineasta – espero que tenham visto o filme dele que passou “A Ordem Moral”, com a Maria de Medeiros. E o Mário Barroso dizia-me a propósito destas coisas das relações que há um outro lado que também tem a sua dificuldade: “A conjugalidade é que é uma coisa mais complicada.” Uma coisa é a fase da paixão, outra é a conjugalidade.

A conjugalidade é mesmo o mais complicado no amor?

—— Não. A conjugalidade tem dificuldades. Como tudo tem dificuldades. Como nadar no mar, ou a condução automóvel, tudo tem dificuldades. É preciso estar disponível para as enfrentar com bom humor. Não serve de nada ter mau-humor. Essa é outra coisa que se aprende muito rapidamente.

Portanto, o humor é algo importante na vida conjugal e na cama?

—— É importante em todo o lado. Na cozinha e em todo o lado. Eu sou sempre favorável ao amor e ao bom humor.

As crises entre o casal podem ser superadas por esse humor?

—— Acho que sim. Com bom humor, doçura, e com abertura para as posições dos outros. Nós estamos agora numa fase que me parece particularmente complicada – ninguém ainda está em condições de avaliar – passou um ano e tal de confinamento.

Tem sido desafiante para os casais…

—— Não só para os casais. Para toda a gente. E embora tenhamos alguma tradição sobre essa matéria, eu vejo muita gente que está muito avariada da cabeça. Vivi sempre no Campo Grande, que considero a minha terra. E como a casa era muito próxima do Júlio de Matos havia sempre pessoas com problemas de cabeça a passear no jardim do Campo Grande. Estava habituado a lidar com a loucura dos outros e a minha própria, às vezes. E com esta coisa do confinamento há muita gente que está desatinada. O que seguramente teve consequências ao nível das relações de amizade e amorosas.

Este último ano teve momentos desafiantes para vocês enquanto casal?

—— Todos vivemos um pouco isso. Não foi nada de particularmente dramático. Na fase do confinamento restrito, houve aqueles dois ou três meses iniciais em que havia até um problema de espaço nas casas. E eu tenho 5 filhos, atenção. A propósito, lembro-me que o Guterres, o nosso Secretário Geral das Nações Unidas, falava do défice democrático e um dia falou também do défice demográfico. Tenho impressão que foi uma confusão. E eu disse-lhe “olha, o défice demográfico no nosso caso não te podes queixar de maneira nenhuma.” [risos] Mas as pessoas precisam de ter espaço. Neste momento, cada um dos meus filhos mais velhos tem o seu. 

É mais fácil ultrapassar uma crise conjugal ou uma crise política?

—— Em política as crises são permanentes. O estado de crise é permanente. Na conjugalidade não diria tanto. [risos]

No contexto amoroso e erótico em que língua fala tendo uma parceira belga francófona?

—— A Annick [Burhenne] já fala muitíssimo bem português. Não posso dizer que falamos exclusivamente em francês. Usamos as duas línguas. Em todos os sentidos. Sou um fã da língua. E vocês saberão melhor do que eu que têm as línguas mais vigorosas, dada a diferença de idades. [risos]

O tema da sexualidade foi alguma vez discutido em casa enquanto filho ou enquanto pai?

—— Eu tive um enquadramento familiar muito bom. Houve sempre ali uma relação de afeto, que uniu o núcleo familiar de 5 pessoas. Vivia com a minha mãe e o meu pai, a minha irmã e o meu avô paterno. A minha mãe sempre foi a pessoa mais próxima, mais atenta. E o meu avô paterno também. Com quem nós tivemos o privilégio e o prazer de viver. Era um homem muito aberto, interessante e muito tolerante. Era um homem que tinha sido sacerdote católico, conspirador republicano. ‘Despadrou-se’ para casar com a minha avó, mas já tinha feito um filho que era meio-irmão do meu pai em pleno exercício do múnus sacerdotal. O que deve ter sido um berbicacho para a Igreja. E agora estou a citar o [António] Costa. 

Bela história. O seu avô trocou a Igreja por um amor. Foi uma referência grande para si? 

—— O meu avô foi sempre uma grande escola para a minha irmã e para mim. A minha avó morreu quando eu tinha 5 anos. A minha irmã nem se lembra dela porque é mais nova do que eu. E o meu avô era um tipo muito galante, um grande pedagogo. Recordo-me que me levava ao barbeiro, na rua 1º de Dezembro só havia cafés e barbeiros. E o meu avô ia comigo já velhote, porque fora um pai tardio do meu pai, e lembro-me que ele apreciava muito as manicures, umas senhoras que tratavam das unhas dos cavalheiros. Ele era um romântico. Já tinha tido aquelas aventuras amorosas todas quando era sacerdote católico. E eu quando cheguei à fase de apreciar as manicures, já não havia manicures nos barbeiros. O meu avô tinha dois tipos de namoradas. As tais manicures e umas senhoras já com uma certa idade que tinham sido antigas namoradas dele. Sobre isto, recordo-me que ele mandava o seu motorista – o encantador e fiel senhor Joaquim – conduzir até Alfeizerão, que na altura era a uma distância brutal, para comprar pão-de-ló para as namoradas. E eu sempre achei isso um modelo de romantismo. Confesso que também já fui a Alfeizerão comprar pão-de-ló. A Annick não aprecia por aí além, mas trouxe para várias pessoas.

É alimentar amores a pão-de-ló. E enquanto pai, como passou o tema da sexualidade aos seus filhos? Já foi tema de conversa?

—— Tem havido ocasionalmente algumas conversas. Mas numa perspetiva sempre de grande abertura.

Tem filhos e filhas, houve diferença na educação? E mesmo entre os filhos mais velhos da primeira mulher e os mais novos, da atual mulher?

—— Eu tenho três raparigas e dois rapazes. Costumo dizer, por gostar de livros e editoras, que a minha primeira edição, é uma geração próxima dos 40 ou acima dos 40 anos, e depois veio a segunda edição que está entre os 17 e os 14 anos, que é a idade da minha filha mais nova. Digamos que as abordagens não foram diferentes. Mas apesar de tudo continua a haver uma certa reserva no plano familiar. E eu nunca tive grandes conversas profundas e demasiado explícitas com os meus pais. As coisas surgiram naturalmente. E o quadro que se verificou entre estas duas minhas edições até agora também não se alterou muito em relação a isso. Mas, por exemplo, nunca houve nenhuma interdição em relação a visionamentos de filmes na televisão. As coisas aí evoluíram muito. Recordo-me do escândalo político monumental criado com o filme “Pato com Laranja” [em 1983], só porque aparecia o rabinho de uma senhora a passar ao fundo numa cena. E isto já depois do 25 de Abril. 

Esse seu espírito aberto teve a ver com a educação?

—— Claro que sim, que o enquadramento familiar e as amizades foram muito importantes. Também as leituras, o cinema. Quando fiz o 7º ano do Liceu e entrei para a Faculdade, no mesmo ano do que o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, os meus pais ofereceram-me uma ida a Paris e a Londres. Fui num avião a hélice a Paris com dois amigos passar 15 dias e aquilo foi um deslumbramento absoluto do cinema, das leituras, dos contactos e das pessoas. Ficámos numa residência de estudantes em Paris, e aquilo era um mundo novo. E tive sempre uma biblioteca fabulosa à disposição lá em casa. Do ponto de vista das leituras românticas, continuo a ser um grande leitor. E também se descobre muito erotismo neles. Há uma cena erótica que me marcou no livro “A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro. É uma cena no cemitério, e há lá uma relação num sótão, que faz estremecer a casa. Como aliás, [o Aquilino] é um dos poucos autores que me fez levantar da cama às cinco da manhã para buscar um naco de presunto e um bocado de pão porque uma certa descrição de uma comezaina era tão estimulante do ponto de vista gastronómico que tive de me servir também do mesmo. Podem ter acontecido coisas destas do ponto de vista romântico, não é?

O desejo, o imaginário erótico e energia sexual é algo que tem de ser cultivado durante a vida toda ou é uma questão desmoronada pelo caminho?

—— Isso depende sempre da postura que nós tivermos. Temos de cultivar as coisas. É como as plantas, as flores, o que se escreve, o que se faz com as pessoas, o que se trabalha, tudo isso tem de ser cultivado. E com as tais notas de bom humor e de doçura e de amor e de amizade. A amizade é também muito importante. 

O erotismo pode ser cultivado a vida inteira?

—— Claro que sim. Olhe, aí invoco o meu avô por ele já cá não estar, e assim estou mais à vontade. Ele foi um homem que morreu com 91 ou 92 anos e lúcido até ao fim. Aliás, o meu pai tinha a vontade de morrer na mesma altura que o pai dele morreu. Tinha aquela meta dos 92 e acabou por cumpri-la. Mas o meu avô manteve-se um romântico cultivador, e alumiava o seu romantismo das formas mais espantosas. E isso sempre me deslumbrou. E espero que tenha ficado alguma coisa dele no meu código genético. Algo daquilo que ele chamava “o cerne de Leiria”, porque ele era de Leiria. Espero que haja em mim esse “cerne de Leiria”.

Há muitos homens que perante um momento de intimidade em que as coisas não resultam como gostaria, ficam ansiosos. Como é o seu caso?

—— Eu não sou nada de ânsias. Há sempre mais. Não é preciso ser amanhã. Até hoje há mais. Há sempre maneiras de olhar para as coisas. É o tal bom humor para a vida, estarmos bem connosco próprios. E há tantas maneiras de estarmos bem.

Sobre amor, sexualidade e suas quimeras o que aconselharia às novas gerações?

—— Aconselho como em tudo na vida, à prática. E à leitura. E que falem com as pessoas. Recordo o que me contou um amigo jurista que teve uma desavença conjugal com a senhora com quem estava no meio de uma coisa romântica. Com cenas de sexo absolutamente exacerbadas. Não posso dizer o nome. Eles estavam num quarto andar na zona de Campo de Ourique e a desavença tinha sido a tal ponto que às quatro da manhã a senhora parte o vidro da cozinha e a garrafa de ‘Grand Marnier’ que estava a ser bebida por ela vem-se estatelar em cima de um carro de um vizinho. Porque a senhora estava muito perturbada, já que aquilo não tinha corrido bem na primeira fase. E, no dia seguinte de manhã quando ele ia a sair, a porteira do prédio disse-lhe: “Oh, senhor doutor parece que ontem houve sarrabulho lá em cima.” [risos] Este ‘sarrabulho’ e o ‘berbicacho’, do Costa, são duas delícias. Entre nós não há nem ‘sarrabulho’ nem ‘berbicacho’.


Entrevista de Bernardo Mendonça e Marta Crawford

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