CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Isabela Figueiredo

Ando aqui a toque de caixa

A minha sapiência sobre sexo assemelha-se à de Adília Lopes: tenho um serviço de louça que herdei da minha avó onde se vê a estampa de uns namorados a segredar num banco de jardim. Acabará na indecência. Nos cafés gosto de perder tempo a observar namorados afogueados com a desvergonha destes tempos. O voyeurismo de esplanada é uma grande escola. A minha mãe diria que podíamos ficar por aqui.  

O catolicismo da minha mãe ainda me está tatuado nos ossos. A igreja católica é a maior máquina de marcação e aniquilação do desejo que a cultura produziu. O sexo é a besta incontrolável, o que não é totalmente falso. As sombras humanas que em nós se vão acumulando revelam-se no jogo carnal. Por outro lado, o jogo carnal é naturalmente pagão. É o Carnaval, território transgressor onde a Razão perde o trono.  

Nunca consumi pornografia. Podem revirar o meu computador. Podem procurar debaixo da almofada do sofá, nos recantos onde se esconde o que não pode ser visto. Tenho uma ou duas nódoas de comportamento que prefiro revelar, antes que alguém o faça: um dia entrei numa loja de objetos sexuais e comprei um aparelho cuja função se revelou pouco útil e que a recôndita moral católica me disse ser inaceitável. Livrei-me do utensílio. Atirei-o para o contentor do lixo e bloqueei na minha imaginação a ideia de que alguém pudesse vir a deparar-se com o objeto no aterro sanitário. Temo que esse embaraço ainda me surja num pesadelo. 

Fui uma noite ao Animatógrafo, nos anos 90, quando o local era um cinema de filmes porno. Foi visita de estudo. Um amigo homossexual costumava narrar-me as insinuações e concretizações homoeróticas associadas ao visionamento desses filmes e fui ver o ambiente. Decadentíssimo. 

Já neste século, um ex-namorado mandou-me por email uma coleção de imagens porno vintage, a que achei graça pelo guarda-roupa e penteados das personagens e pela decoração dos espaços. Gosto daquilo em que não se repara: a rendinha das cuecas que a senhora está a despir ou o modelo da sunga masculina. O padrão do tecido dos cortinados ao fundo. Bonecos. Os bigodes dos homens são toda uma sociologia do poder! 

Algures no passado tive uma infância, adolescência e primeira colheita da adultícia nas quais tive oportunidade de me dedicar a aprimorar a prazerosa arte da autoestimulação genital ou traduzindo para português: masturbação com fartura. A masturbaçãozinha é um consolo e um alívio. O corpo não nos nega o que nos deve. Claro que será maravilhoso haver na nossa vida alguém que se possa abraçar e com quem viver cenas românticas como as dos filmes, mas tenho de me cingir ao que conheço bem: quando não há ninguém, estamos cá nós, que somos uma graça de Deus. Não nego que o toque seja a grande luxúria. Quando a cabeleireira me lava o cabelo e sinto os seus dedos massajarem-me o crânio, fecho os olhos e consolo-me. Calquem-me a cabecinha, apertem-me os pezinhos, as mãozinhas, os braços, as pernas. É tudo bom.  

A meio da adolescência a masturbação deixou de ser uma estranha aberração de que padecia, e também um pecado mortal. Tornou-se apenas uma vergonha inconfessável.  A libertação chegara com o 25 de Abril. O consultório sexual da Crónica Feminina, que líamos avidamente à procura das taras dos outros, parecidas com as nossas, desproblematizava o assunto, que ninguém praticava, apenas os malucos que para lá escreviam a coberto do anonimato.  

Passou-se uma vida inteira de fracassos sexuais, mas não estou aqui para me queixar. 

Há dez anos tornei-me finalmente um produto físico mais ou menos de acordo com as regras da moldura sensual da nossa cultura. Tinha emagrecido muito e ficado quase normal. Já dava para entrar na bolsa de valores do mercado sexual.  Precisamente na altura em que estava preparadíssima para a grande brincadeira, caiu-me em cima um piano chamado menopausa. O chip do desejo ficou esmagado, acidente deveras estranho para quem tinha sofrido o desassossego de uma libido poderosa. Não dei parte de fraca: substitui umas compensações por outras e deixei andar. Foi sensato. Ultimamente reparo que os meus olhos voltaram a estatelar-se em exemplares nos quais me tinha esquecido de reparar. Promessas de touro bravo. Uma ideia de masculino que o meu sistema límbico registou sem me perguntar se concordava. Não sou eu que reajo, é o sistema límbico. Só ando aqui a toque de caixa. Quando descubro uma promessa de touro bravo o meu corpo põe-se segregar substâncias dopantes e alucinogénicas e compreendo que a menopausa não é a morte. Apesar do piano, ainda aqui estou para as curvas. Sorrio com a ideia. O que nos deixa felizes dá muito sentido à vida.


Isabela Figueiredo – Escritora

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on email
Share on google