CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Pedro Vendreira

Alfaiate ou pronto a vestir?

Apesar de nos últimos anos se ter vindo a assistir a uma maior difusão nos meios de comunicação social sobre este assunto, proporcionando uma melhor compreensão de uma doença (Disfunção Eréctil), a verdade é que há ainda muito trabalho pela frente. É uma doença que afeta em Portugal cerca de meio milhão de homens, independentemente da sua gravidade. É reconhecidamente um problema generalizado de saúde pública, que pode ter um impacto importante na qualidade de vida e relacionamento das pessoas por ela afetadas. Este impacto na qualidade de vida do casal pode ser enorme, constituindo uma doença real, com repercussões a nível pessoal, social e profissional. Felizmente, a introdução de novas estratégias terapêuticas orais dotadas de grande eficácia e segurança, aliada a uma melhor difusão social possibilitando um adequado esclarecimento da doença como um todo, e desvanecendo progressivamente o estigma da vergonha, veio permitir uma melhoria significativa na procura do tratamento por parte destes doentes.  

A abordagem deste tema perante o médico toma diversas formas. Por vezes a consulta é “encapotada”, isto é, a queixa diz respeito a outra situação (habitualmente são queixas relacionadas à próstata e respetivos sintomas urinários), e mais para o fim da consulta o homem timidamente diz: “e já agora” – e é nesta fase que nos apercebemos nitidamente do verdadeiro motivo da consulta. Um outro grupo de homens prefere garantidamente que seja o médico a abordar o problema (“a quebrar o gelo”), permitindo um diálogo que já diminui muito o stress destes homens (“ao fim e ao cabo foi o médico quem perguntou, pensam”). Muitos doentes necessitam de mais de uma consulta para criarem o ambiente informal com o médico de forma a poderem expor o que os preocupa já com um menor grau de constrangimento. 

A idade e a vivência da sexualidade podem ser fatores altamente motivadores ou, pelo contrário, profundamente castradores no que diz respeito ao readquirir da função eréctil do homem através do uso de medicação oral. Situações em que a mulher encara com bons olhos o cessar da atividade sexual pondo fim a um “dever” de longa data que na esmagadora maioria das vezes nunca lhe transmitiu prazer, pode ser vista como um fenómeno de “libertação” e como tal vamos observar uma passividade por parte desta, aceitando naturalmente a situação e orientando o companheiro para outras motivações. Já o reverso da medalha é também verdadeiro, e fruto de uma nova era de tratamento da disfunção eréctil, outros casais com outras sexualidades procuram ajuda. Para casais mais ativos a companheira sente curiosidade, apesar de em geral ser o homem a dar o primeiro passo. Isto não é sinónimo de que a mulher não quer tomar a iniciativa, mas pensa que o companheiro deve dar o primeiro passo. É de salientar, no entanto, que a passividade da mulher tem vindo a ser progressivamente substituída por atitudes globalmente mais participativas neste campo. Para casais mais jovens, a situação hoje está mais facilitada, pela abertura sexual atual. Desde que ambos se “entendam” sexualmente, os atuais meios de informação permitem maior liberdade de escolha, e se o homem ainda se sente envergonhado pela situação, hoje em dia é a companheira quem puxa dos galões e encara o problema como qualquer outra doença que surge e tem de ser tratada motivando desta forma o uso dos tratamentos orais. É mais eficaz tratar estas dificuldades em casal dado que desta maneira é francamente mais fácil determinar e contextualizar o tipo e origem das queixas sexuais. No fundo, um problema sexual é sempre um problema de casal. 

A terapêutica farmacológica da disfunção eréctil está hoje a ser amplamente utilizada, é eficaz e segura, acabando por constituir uma excelente arma de reforço na qualidade de vida. Com esta extrema mudança na sexualidade em geral, a que assistimos nos últimos 20 anos, e que acima de tudo se entrelaça não só nas novas armas terapêuticas, mas também na difusão de conceitos e no conhecimento mais (ou menos) esclarecido, urge encorajar a procura de auxílio capaz, não permitindo o arrastar nos anos destas situações até um ponto de não retorno, que vai transtornar de forma altamente significativa a estabilidade do casal.

A disfunção eréctil é atualmente considerada uma entidade patológica bem definida e com múltiplas opções terapêuticas. Deve ser salientado que todos os doentes são diferentes, e que estes e as respetivas parceiras deverão avaliar a taxa de sucesso de qualquer terapêutica atendendo à sua eficácia e tolerância, bem como decidir se continuam ou não a terapêutica e a frequência de utilização da mesma. Os doentes deverão exercer a sua própria escolha, mas sempre com aconselhamento médico


Pedro Vendeira – Médico Especialista em Urologia e Presidente da Sociedade Portuguesa de Andrologia, Medicina Sexual e Reprodução 

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