Rita Blanco

ATRIZ


Estás a terminar as filmagens de “Mal Viver”, o novo filme de João Canijo, sobre o desamor de mãe. Ou “mães que não conseguem amar as filhas que, por sua vez, não conseguem ser mães”. É a vida como ela é?

—— É também a vida como ela é. Mas esperemos que eu seja uma das mães que conseguiu deixar de ser filha para se tornar mãe. E quanto mais amado tu és, mais fácil é essa transição, provavelmente. Estou aqui a falar de coisas que não sei muito bem. Mas quando começámos a falar sobre este filme eu disse sempre ao João [Canijo] que para mim este filme era sobre filhas que não conseguem deixar de ser filhas.


Mulheres que são acima de tudo filhas a vida inteira, mesmo depois de se tornarem mães?

—— Sim. Quando não conseguem sair do papel filhas para se tornarem mães. E isso acontece muito. É não conseguires sair de ti próprio, nem chegar a esse amor incondicional em que te esqueces de ti e consegues passar para outro sítio. E que o mais importante é o que tu geraste: os teus filhos. E como só posso falar daquilo que vagamente desconfio, no caso de se ser mulher e de ser mãe, há um dia em que deixas de ser filha e passas a ser mãe. Para passares o testemunho. E ainda que eu tenha tido dificuldades. Eu tenho uma relação ainda assim complicada com a minha mãe. Nunca resolvida por mim, pelo menos. Mas eu acho que consegui dar esse salto para tentar dar o melhor de mim à minha filha e amá-la o suficiente para não fazer comparações. Uma coisa para mim muito importante, era nunca ter ciúmes da minha filha. Que o amor que eu tivesse para dar à minha filha nunca me provocasse ciúmes. Sempre fui um bocadinho ciumenta e tinha receio que isso pudesse interferir na minha relação com a minha filha. Quanto mais as pessoas gostarem da minha filha, mais feliz eu fico.



A partir do momento que foste mãe da tua filha, a Alice, passaste a encarar de outra maneira a (má) relação que tinhas com a tua mãe? Resolveste melhor a vossa relação?

—— Não. Não consegui resolver. Os filhos não podem resolver as nossas relações com as nossas mães. Mas podem sublimar algumas coisas. Ou seja, para mim era tão importante que a minha filha tivesse avós. E os meus pais foram fundamentais na educação da minha filha. E eu tive que ultrapassar as minhas dificuldades com a minha mãe para que a minha filha tivesse o melhor. Que foi ter uns avós excepcionais.



Parece que os avós se entregam de outra maneira aos netos e são outras versões de si próprios como nunca foram enquanto mães ou pais, não é?

—— Sim. Sim. A relação que a minha filha tem com os meus pais é excecional. E então digamos que sublimei a minha relação com a minha mãe, na minha filha. De novo, quis pelo menos permitir que a minha filha tivesse a melhor relação com a minha mãe. E ela tem. O que muitas vezes redime a minha própria relação com a minha mãe. Porque a minha mãe é muito melhor como avó do que foi minha mãe. [risos]



E isso acontece tantas vezes, em tantas famílias, porquê? Pelo facto dos avós não terem o peso de educar e estão mais livres para curtir os netos de uma forma mais leve?

—— Não sei. A minha mãe parece saber gostar melhor da minha filha do que de mim. Mas também não sei se isso é um olhar meu que não tenha resolvido. Uma coisa é certa, a minha mãe foi importantíssima na educação da minha filha. Trouxe-lhe muito mais coisas boas do que más.



Com o passar dos anos ficamos cada vez menos disponíveis para amar? Ou seja, a idade pode ser uma armadilha ou uma mais-valia para o amor?

—— Eu não deixei de amar. Continuo totalmente disponível. O que eu acho é que os objetos do amor são mais vastos. Isto é, percebes que não tens só que amar pessoas. Que o teu amor é elástico e transversal: A livros, pessoas, animais, ideias. Há muito mais maneiras de amar.



E onde fica o amor romântico?

—— Estou numa fase muito pouco disponível para o amor romântico. As minhas experiências levaram-me para isso. Outras levarão para outro sítio. A minha última foi dolorosa e difícil. E isso tirou-me a vontade de amar outra vez, imediatamente. Tenho tantas coisas para amar, neste momento. Por exemplo, o meu trabalho, projetos diferentes, o estar mais ligada à natureza e à vida. À ideia de trabalhar menos horas, quero uma coisa menos demente. Para mim são outras formas de amar. E, portanto, não sinto necessidade dessa maneira de amar. A tal romântica. Tem certamente a ver com a minha experiência que não foi muito feliz. Less in the mood for love.



O sexo está em tudo o que fazemos? Ou isso é um disparate de poetas e sexólogos?

—— Está em tudo o que fiz. Mas agora não está presente. Hoje em dia tem mais a ver com memórias e ‘profilaxia’, por assim dizer. Não estou nada para aí virada. E eu era bastante ativa e muito entusiasmada com isso. E agora não estou nada. Até costumo dizer por graça – uma coisa que a minha filha não gosta nada – que é ‘eu daqui para baixo estou morta’. Eu adoro borboletas, mas fora da minha barriga. Não me macem.



Achas que foste sempre mal amada romanticamente?

—— [pausa] Sim. Talvez porque não tenha sabido amar melhor. Mas, nem sempre. Nós desejamos sempre uma quimera. Ou eu sempre desejei sempre. Provavelmente porque eu me sentia sempre mal amada antes de ter qualquer tipo de relação. E isso veio repercutir-se sempre nas relações que vinha a ter porque o problema estava em mim. Também as escolhas que eu fazia estavam próximas disso. Como eu conhecia o espaço do desamor, ia sempre procurar no outro esse espaço que conhecia. Muitas vezes vamos procurar o que conhecemos, porque nos é mais confortável. Se calhar não sei encontrar a pessoa que me poderia amar. Ou não sei amar a pessoa que me pudesse amar. E isso se calhar está em mim e não nos outros. Se calhar com terapia e tal. Já fiz. Mas preciso de mais. Obviamente preciso de mais [risos]


Bernardo Mendonça —— Entrevista
Fotografia —— DR

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