CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Kalaf

“Foda-se, sou pai!”

Nada o preparou para o acontecimento maravilhoso, e absolutamente assustador, que foi ser pai. Os seus olhos, rasos de água e brilhando de incredulidade, isso mostravam. Desconfiado das suas próprias mãos, redobrou os cuidados, como se, naquele primeiro instante, carregasse nas palmas côncavas água para saciar a sede depois de atravessar um deserto.


Dizia sentir-se preparado. Leu todos os livros que lhe chegaram às mãos e acompanhou todas as aulas pré-natal, mas poucos momentos antes de entrar para a sala de parto, a sua memória sofreu um total apagão. O esquecimento começou, provavelmente, no momento em que chegaram as contrações, naquele instante em que as águas se romperam e ela olhou para ele com olhos de espanto, perguntando com o olhar se deveriam correr de imediato para a maternidade ou se esperavam até que as contrações tivessem a duração de um minuto, em intervalos de sete.


Decidiram sair da cama. Ela dormia com uma uma t-shirt dele e umas cuecas que a faziam rir, pois lembravam-lhe calções de cintura alta. Durante 8 meses de gestação não quis vesti-las, receando que com elas e com a sua barriga de 39 semanas a sua sensualidade ficasse hipotecada. Um erro. No dia em que experimentou as cuecas de gola alta, arrependeu-se de ter demorado tanto tempo a sentir o conforto que invadiu o seu corpo. Ele, desde o tempo em que namoravam, dormia totalmente nu, todas as noites. Nunca foi necessário muita coisa para ficar de pau duro, e as cuecas dela em nada o afectavam: ela estava mais sexy do que nunca. E se o sexo já lhe kuyava tipo comida, tirito de grávida foi uma verdadeira revelação. Nunca davam menos de duas lingas.


Naquela noite, tentou a todo custo manter a calma, lembrava-se do Guia de Maternidade e de como era repetido vezes e vezes e vezes e vezes sem conta que “o pânico é contraproducente”. Era preciso pensar direito. O saco com as roupas e previsões para o hospital, as chaves de casa, a carteira dos documentos. Ok.


As primeiras horas foram sem sobressaltos. Roeu todas as unhas que havia para roer e tentou não se desesperar muito com o estado de inutilidade absoluta que se abateu sobre ele durante as horas de dor, suor e agonia com que ela lutou para dar à luz o seu primogénito. Eulálio seria o seu nome, em homenagem ao seu avô paterno. A escolha do nome foi o único motivo de conflito entre os dois. Ele queria cumprir uma promessa feita à mãe, que lamentava o facto do avô não ter tido nenhum xará, pois até então, na família, só tinham nascido meninas; já ela queria Ndunduma, porque lera num livro e achara bonito, não queria o seu filho ligado a traumas familiares do passado e, sobretudo, que carregasse o nome de um colonizador. Decidiram então que o nome seria escolhido pela criança. O primeiro nome que fizesse o bebé sorrir seria então o escolhido. Ele estava seguro que a tradição venceria, mas nada os preparou para o que veio a seguir.


No momento em que segurou pela primeira vez aquele ser minúsculo, indefeso e aos berros, que tentava sorver todo o oxigênio daquela sala, e ao olhar fundo para dentro dos seus olhos, a ficha caiu-lhe.


“Foda-se, sou pai!”


Naquele desabafo, senti que queria dar-se a conhecer sem reservas, e explicar-me a mim, seu filho e ainda um pingo de pessoa nas suas mãos, como funcionava o mundo, mesmo quando ele próprio procurava ainda respostas simples que não fizessem a sua voz quebrar-se quando me disse.


“Ndunduma, morreu-nos a mãe, e nem lhe conseguimos perguntar de qual livro tirou o teu nome.”



Kalaf —— Cronista, escritor

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