CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Rute Agulhas

Amor é bossa nova, sexo é carnaval

“Amor é cristão
Sexo é pagão
Amor é latifúndio
Sexo é invasão
Amor é divino
Sexo é animal
Amor é bossa nova
Sexo é carnaval”



Ninguém como a Rita Lee explica tão bem a diferença entre amor e sexo. O amor como algo mais sereno e divino, pautado pela emoção e intimidade e, também, pelo compromisso e companheirismo. O amor envolve ainda a confiança, o desejo de melhor conhecer o outro e a vontade em manter um vínculo afectivo. E, sim, por vezes “o amor nos torna patéticos”.


Já o sexo… ai o sexo! O sexo é explosão e invade todos os nossos sentidos, numa torrente de emoções e sensações. É poesia, é animal e é carnaval, que é como quem diz, alimentado pela novidade, pela fantasia e pela imaginação. O “sexo é uma selva de epiléticos”.


Comecemos por falar sobre a novidade. Os casais que fazem diversas coisas juntos e, em particular, coisas novas, parecem sentir mais desejo um pelo outro. A novidade apimenta a relação e ajuda a quebrar a monotonia, revelando-se um óptimo afrodisíaco. Já pensou sobre isto? O que pode fazer de diferente para sentir mais desejo e excitação sexual? Um brinquedo sexual? Práticas sexuais diferentes? Um jogo erótico?


Os jogos eróticos tornam o sexo mais divertido e estimulam a descoberta conjunta do prazer. Facilitam ainda um maior conhecimento do outro, a desinibição e a descoberta de novas sensações. Experimentar coisas novas reforça a intimidade do casal. Fica aqui o desafio.


E o que dizer da fantasia e da imaginação? Os animais têm sexo, é verdade, mas são os seres humanos que têm a chamada inteligência erótica, capaz de transformar a sexualidade através da imaginação.


O poder da imaginação é muito maior do que possamos imaginar. Com ela ganhamos asas, voamos e descobrimos novos mundos. Descobrimo-nos a nós mesmos e ao outro. Com o outro. Ao mesmo tempo, a imaginação não tem limites nem balizas, o que equivale a dizer que, no plano da fantasia, tudo é permitido. Por isso, permita-se fantasiar e imaginar, individualmente ou a dois.


A partilha das fantasias reforça a intimidade emocional e sexual do casal. No entanto, a partilha não significa necessariamente a sua concretização. Mesmo que a fantasia envolva algum tipo de transgressão ou prática que não se imaginam a experimentar (como, por exemplo, um ménage a trois, swing ou sexo em locais públicos), permitam-se fantasiar, deixando a culpa e a vergonha lá fora. Foquem-se, sim, naquilo que a partilha vos oferece.
Experimentar coisas novas e partilhar fantasias sexuais é também uma forma de melhorar a comunicação entre o casal, sendo certo que o sexo não é apenas um comportamento. É também uma linguagem. E quando falamos de comunicação, falamos num processo bidireccional que envolve expressão verbal e não verbal, capacidade de escuta e de entrar no mundo do outro, de forma empática.


Em jeito de conclusão, diria que a conjugalidade e a sexualidade são duas faces da mesma moeda, que é preciso saber complementar de forma a que ambos os parceiros se sintam gratificados. Uma comunicação funcional, a par de uma adequada expressão afectiva e da capacidade de resolver conflitos, são os ingredientes imprescindíveis para este sentimento de satisfação. Ingredientes que podem ser treinados e que, na dose certa e com imaginação, podem ajudar a apimentar um pouco a relação.




Rute Agulhas —— Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar

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