CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Aldina Duarte

A Mãe

Do ventre a bomba terra luminosa rompe. Húmida, toca a superfície.

— Ó mãe, quem semeou tantas estrelas nesse abismo que estás a contemplar?

Sinto o frio macio da tua mão, minha Mãe de seda breve. Mãos de anéis a apertar os filhos contra o peito. Era como um espelho onde se fosse olhar. Ela velava perto do filho que dormia, e cândida sorria ao lírio entreaberto.

É um cavalo a galope, no seu peito, o coração. É aquele que o tempo não consome, – um coração de mãe!

— Mãe, custa-me tanto rir.

Limpa-me o pranto dos meus olhos tristes, fecha na tua mão os meus ideais. (Sei agora que isto de a gente ser grande não é como se pinta…).

O nascimento, a hora, a luz do dia, dão -me um fecundo amanhecer de esperança. Há um misto de candura, de amor, de luz, de bem… Ela está junto das coisas que bordaram com ela os dias que supôs mais belos. É a minha mãe mais perto, mais pertinho, que eu sinto quando toco o velho xale, que guarda um não sei quê de carinho. Minha mãe volto ao teu ventre tantas vezes rasgado. Aconteceu Poesia, quando nos teus olhos cor do céu vi o pedaço de céu que me cabia. Para que o dia fosse enorme, bastava toda a ternura que olhava nos olhos de minha Mãe…É ela quem procura inventar para nós o melhor futuro. Recolhi as estrelas nos meus olhos e trouxe-as para ti. Tu és do Ideal a asa!

[AUTORES: António Manuel Couto Viana; António Patrício; António Sousa; Armando Corte-Rodrigues; Eduardo Coimbra; Eugénio de Castro; Fausto Guedes Teixeira; Fernando Vieira; Francisco Bugalho; Francisco Costa; Gomes Leal; Gonçalves Crespo; Guilherme Braga; José Régio; José Simões Dias; Matilde Rosa Araújo; Moreira das Neves; Nuno Guimarães; Sebastião da Gama; Sebastião Penedo; Vítor Matos Sá;

Albano Martins (org.), A Mãe na Poesia Portuguesa. Antologia. Lisboa, Edição Público, 2006]

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Nota: Espero que os excelentíssimos poetas, lá onde estiverem, não se zanguem por ter juntado estes versos na celebração deste amor maior do que a vida que, tendo eu escolhido não ter filhos, descobri nos braços, no sorriso e no silêncio da minha mãe.



Aldina Duarte —— Fadista, letrista

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