AS PARTES PERTURBADORAS

Cartas para a minha filha

Cláudia Lucas Chéu

04.04.2021

Querida filha, meu amor, estás tão crescida. Acho que não estou preparada para lidar com o facto de teres praticamente o meu tamanho. Esta é a primeira carta — espero que de muitas — que te escrevo. De há umas semanas para cá, à medida que te aproximas da data do teu nono aniversário, as perguntas que me fazes são cada vez mais difíceis de responder (algumas bastante constrangedoras), e decidi então começar a escrever-te. Mentira, a ideia foi da Marta Crawford (obrigada, Marta), mas a verdade é que achei uma excelente ideia estas cartas servirem de complemento àquilo que muitas vezes não sou capaz de te dizer, ou simplesmente não sei, no que toca aos temas sexuais. Fica assim escrito o que, de facto, a tua mãe pensou nos momentos em que te mentiu ou teve de arranjar uma versão intermédia ou apenas fugiu para outra divisão da casa, por não saber o que te dizer. Deixares-me à rasca com perguntas não é nada de inédito, desde que eras muito pequena que fico aflita com as tuas questões e raciocínios surpreendentes.


Por exemplo, quando me perguntaste aos cinco anos o que eram as partes perturbadoras. «Mãe, os bebés nascem pelas partes perturbadoras?» «O que são as partes perturbadoras?» «O pipi, a pilinha e o rabo.» «São perturbadoras?» «Sim, porque as pessoas ficam perturbadoras quando as vêem.» Não podias ser mais exacta no nome que arranjaste para as partes pudendas do homem e da mulher. A realidade é que tens ideias inusitadas a torto e a direito, como todas as crianças, acho.


Por exemplo, no outro dia estavas a tomar um banho de imersão, preparado por mim, claro, a ver se te desacelerava a pedalada; juro que não sei onde vais buscar tanta energia ao fim de um dia a aprender, a correr e a trepar árvores na escola. Tinha posto a tocar a música “Leãozinho”, do Caetano Veloso, e acendido umas velas para ver se baixavas a corrente eléctrica um bocadinho antes do jantar, quando desataste a chamar por mim aos gritos. Larguei os legumes que estava a cortar para a sopa e saí rapidamente da cozinha. «Mãe, o que é porno?», perguntaste tranquilamente. Não estava preparada para ouvir aquilo. Respondi logo: «Isso não é para a tua idade.» Mas reconsiderei e tentei pensar rápido, com as mãos sujas de abóbora. Como é que lhe explico? Mas antes, e para ganhar tempo «Onde é que tu ouviste isso?» «Foi o não-sei-quantos lá da escola que me disse.» (É claro que eu sei quem é o não-sei-quantos, sei os nomes dos teus colegas todos, ora essa, mas não posso indicá-los nestes textos.) E eu a tentar desenrascar-me daquela, é que nunca tinha pensado como raio é que se explica o que é pornografia. E tu a insistires, deitada na banheira, muito descansada a chapinhar, comigo estacada à ombreira da porta: «O que é porno, mãe?» Lá ganhei balanço para te dizer que «é fazer sexo de uma forma feia». «De uma forma feia porquê, mãe?» «Porque é feito entre pessoas que não gostam umas das outras, muitas vezes nem sequer simpatizam, e maioritariamente são pagas para fazer aquilo.» Interrompeu-me com um esclarecimento que me deixou ainda mais perplexa: «Como as p-u-t-a-s?» «Mas tu sabes o que isso é?» «São senhoras que aceitam ter sexo em troca de dinheiro.» Devo ter ficado com a juba eriçada ao som da música «Leãozinho». «Mas como é que sabes isso?» «Foi o professor que nos explicou durante a aula.» Certo, menos uma difícil para te explicar. «É isso, é mais ou menos aquilo que fazem as prostitutas. Agora tenho de ir despachar a sopa.» Escapei-me de te continuar a explicar. Vais perceber, quando fores crescida, que estas perguntas são muitos difíceis para os progenitores. Ficamos mesmo sem saber como nos desenrascar. Há um limite entre dar respostas informativas e razoáveis e dizer exactamente aquilo em que estamos a pensar. Mas fiquei a remoer naquilo enquanto terminava de cortar os legumes para a sopa. O que é porno? Como é que se explica isto a um filho pequeno? Sabes, filha, tive de limpar as mãos ao pano da cozinha e pesquisar na internet, mas a definição que encontrei na infopédia também não me satisfez: «1. representação de elementos de cariz sexual explícito, sobretudo quando considerados obscenos, em textos, fotografias, publicações, filmes, ou outros suportes; 2. produção de filmes, revistas ou outros elementos de cariz sexual explícito, considerada como uma indústria.»


Esta parte da indústria é importante, já não me lembrava desse factor, a pesquisa afinal foi algo didáctica para mim também. Continuei a remoer enquanto cortava os alhos e a cebola. Acho que não dá para explicar bem a uma criança o que é o porno, porque a pornografia implica o conceito de obsceno.


Sendo que o obsceno é um atentado aos valores morais e ao pudor, e na pornografia manifesta-se de forma gráfica, explícita. Calculo que não percebas patavina do que acabo de escrever. Esta parte da carta podes ler mais tarde. É-me impossível fazer-te entender agora o que é a pornografia, até porque posso ser uma consumidora moderada desta indústria mas não sou nenhuma especialista. Fiquei tão stressada com o tema – porque para nós, mães e pais, os filhos são sempre pequeninos, e vê-los falar destes assuntos é, no mínimo, chocante – que só pensava enfiar-me na banheira quando de lá saísses. Mas comprei uma banheira pequena demais para mim; nesta casa só tu é que podes usufruir da banheira. Mas sabes uma coisa, filha? Quem ficou a precisar de um banho de imersão foi a mãe.




Cláudia Lucas Chéu —— Escritora, poeta, dramaturga

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