crónica —— dentro de mim

Marta Crawford

O vento soprou dentro de mim

Toque aqui. Para maior prazer na leitura…


Tinha viajado para Viena, para um festival de música barroca, com o coro e orquestra a que pertencia. Aquele seria o último concerto da temporada e ela voltaria finalmente para casa. Dessa vez tinham ficado todos alojados numa belíssima residência artística pertencente à Casa de Habsburgo-Lorena, para o grand final do dia seguinte.


Nessa noite, lembra-se de ter acordado sobressaltada. Pareceu-lhe escutar o vento forte. Seria um temporal? Descalça e de camisa de noite, desceu a grande escadaria daquele edifício antigo e dirigiu-se ao local onde tinham ensaiado durante a tarde. O salão tinha janelas enormes que enquadravam um magnífico jardim de magnólias. As portadas pintadas de branco, com pequenos apontamentos em dourado, emolduravam aquele cenário de forma perfeita.


Reparou que uma das janelas se tinha aberto de par em par pela força do vento. Todas as partituras voavam pelo ar rodopiando pela sala como se fossem bandos de pássaros desalinhados no céu.  O vento soprava de tal forma que ela mal conseguia mover-se e até as cortinas de veludo verde esvoaçavam, como se fossem enormes asas que a impediam de se aproximar. Os instrumentos desalinhados tocavam sozinhos, embalados pelo vendaval, quando ouviu um violoncelo a tocar o seu preludio favorito — cello suite nº1 in G Major. Na escuridão tempestuosa da sala, procurou com os olhos o violoncelista, mas o violoncelo parecia ser tocado por umas mãos invisíveis.


Recorda-se de ter dançado no meio da tempestade. Quando fez a sua primeira pirueta, os seus pés distanciaram-se do chão e o seu corpo foi projetado sobre as partituras confundindo-se com elas. Em menos de nada, passou de breve a semibreve, de colcheia a semicolcheia e, quando as pontas dos seus pés roçavam o chão de madeira encerado, de fusa a semifusa. A dança era tão vibrante que podia jurar que dançara com todos os instrumentos que ali estavam, sem pudor. Quando suavemente pousou no beiral, aproximou-se da janela e tentou fechá-la com força. Foi nesse mesmo instante que sentiu as mãos que a ajudaram a empurrar a tranca e a encurralar o vento lá fora. O êxtase daquele momento transferiu-se para um entusiasmo diferente. O calor daquelas mãos masculinas sobre as suas, transmitiam-lhe uma sensação singular. Sentia o bafejo da boca dele no seu pescoço frio e ao virar-se ficou colada a ele. 

Nunca tinha estado sozinha com um homem e muito menos com ele. As mãos quentes começaram a aquecer-lhe o corpo e ela sentiu-se febril, os beijos dele na sua boca eram diferentes dos que já outrora tinha provado. Pareciam confundir-se com a sua própria boca, como se fosse só uma. Nunca tinha sentido uma língua dentro da sua boca para além da sua e aquela penetrava-a sem decoro. Ela não sabia o que era suposto fazer e por isso deixou-se ir. As carícias daquelas mãos tocavam-lhe gentilmente por cima da sua camisa de noite branca imaculada. Sentia as suas maminhas rígidas e com um vibrato, como se precisasse que a boca dele a sugasse com uma emergência súbita.


Agradou-lhe acariciar aquele corpo viril, aqueles braços fortes e, destemido, ele mostrou-se-lhe. Ela viu algo que desconhecia por completo: os genitais de um homem. Era um pénis firme, sedoso, que a sua mão virgem acariciou com delicadeza, sentindo a textura daquela pele. Parecia-lhe seda, embora a humidade lhe lembrasse outra coisa. Cheirou-o suavemente e beijou-o. Que belo que era aquele órgão, aquela pele, apetecia-lhe agarrá-lo e não o deixar partir nunca mais. Nesse preciso momento, sentiu-o a contrair-se e a deixar sair de dentro de si golfadas de um líquido branco. Parecia-lhe uma fonte a jorrar água, o que lhe deu vontade de rir.  Era maravilhoso ver aquele corpo a ondular como se fosse um touro endiabrado e, por isso, saltou-lhe para cima como se fosse um gafanhoto e ficou encaixada nele. Aquele salto foi tão forte, intenso, apertado, que o corpo dela começou a tremer e, ao ritmo dele, quanto mais galopava, mais febre sentia. Eram dois corpos enraivecidos, agarrados, triunfantes, até ao fim, até caírem.


Acordou sozinha. O cortinado verde de veludo cobria-a sobre o beiral da janela onde se encontrava. Percebeu que era de manhã, sentiu o cheiro intenso das magnólias e o despertar do sol. Daí a pouco todos se levantariam. Amarrou o cabelo com um lápis e apressou-se a sair do salão.

Olhou para trás e estava tudo no lugar. Iria jurar que o vento soprara toda a noite dentro de si.



Raquel Porto —— videoilustração

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