CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Luís Pedro Nunes

Peço perdão

Lembrei-me desta história. Tem anos. Uma amiga iraniana deslocava-se regularmente a Teerão e dizia-me detestar o clima hipersexualizado de toda aquela sociedade. Difícil para mim entender, ao mostrar-me fotos escondida no véu e vestidos escuros e pesados até aos pés obrigatórios nas visitas oficiais que fazia. Não entendia nada, replicava-me irritada, como aliás repetia com qualquer coisa que metia Irão. E explicava que em farsi, por exemplo, havia várias palavras, de conotação sexual, para descrever o som de diversos tipos de saltos altos (mais grossos, finos, batida leve ou determinada) a calcorrear os mármores do chão. Aqui tenho que fazer um parêntese. Primeiro, o facto de as mulheres iranianas, mesmo sob aquelas vestimentas para as anular, fazerem gala em usar saltos altos e de lá por baixo se vestirem “sabe-se lá como”. E os homens o pressentirem. E de, em Teerão, os pisos dos edifícios oficiais (e não só) serem de mármore, em espaços silenciosos e amplos que permitiam que diversas palavras com significados erotizados se criassem no eco por causa do trémito que provocavam. Achei aquilo lindo. Poético. Idiota, respondeu-me. Consegues imaginar os homens, nojentos, porcos, a tocar nas braguilhas e a falar dos saltos que temos e a partir disso descrever-nos como mais ou menos ‘sluts’? E ficava sem saber o que dizer. O meu sentido poético tropeçava na alarvidade do real.



Tenho lido e até já escrevi que a libido está morta. Só me atrevo a dizer tal porque cito cientistas, estatísticas, dados recolhidos. E que isto tende para mais um apocalipse entre tantos outros que estamos a viver: no ocidente o sexo acabou. Deu as últimas. Broxou, como dizem os brasileiros. Reza assim: dois ou três meses após o início da pandemia foi anunciado que a libido planetária estava em crise (até já vinha de trás, mas não compliquemos). Tudo em casa, fechado, em família, em stress, não era propriamente um clima de tusa. Por mais que houvesse quem tentasse dizer que a dinâmica sexual até tinha potencialidades. Casais em overdose de intimidade. Tinha essa ideia, mas calei-me. Cá para mim, digo eu, a líbido é arisca e precisa de desanuviar, de catrapiscar, de ver e imaginar possibilidades mesmo que depois se fique. É um apetite, uma voracidade, que pode escolher o mesmo do menu, mas tem de existir menu. A pandemia tirou o menu da mesa. Sem estímulos, sem frou-frou, perfume que tilinta, olhar transviado, passadeira vermelha imaginada, mal-entendido, faux pas, pescoço de penugem eriçada, sorriso equivocado, toque sem querer (mesmo!), um pouco de purpurinas que a animem – ai e sem tanto mais – a libido cai para o lado derrotada como o meu gato obeso ao sol da primavera. Há um ano que estamos enclausurados. Os humanos caminham para a extinção por falta de foda. O outro assusta. O outro tem de usar máscara. O sopro que o outro expele pode matar-me. Como é que vamos sobreviver sem lamber, sugar, mordiscar, dormir colados no suor e sucos orgânicos variados, suspender misteriosamente a noção de nojo e abocanhar esfomeados, afocinhar sem olhar, cuspir e regurgitar e rechuchar e mais não sei o quê que não me lembro se temos medo do ar, sim do ar, que sai da boca a metro e meio? Difícil.



As coisas já não estavam nada bem. Lia por aí. Os mais novos estão tramados. Uns estão cheios de porno naquelas cabeçorras, viram tanta variedade e tipologia de fornicação desde a pre-adolescência que obviamente a ideia de sexo papai-mamãe, posição de missionário, ela em posição de frango assado na grelha, 10 minutos à 6ª feira e vamos dormir é algo absolutamente entediante. E morreu o homem-cliché de filme francês noir: um ser entediado que navegava por diferentes mulheres em busca de algo comum (ou em busca de algo diferente). Nasceu o cliché Netflix do teen que navega por diferentes sexualidades em busca de si. Na sua fluidez sexual sem se encontrar. Estou a inventar. Não faço ideia se isto é mesmo assim. Isto são generalizações. Eu vejo porno há 35 anos. E compartimentalizo. Ok, generalizo: como qualquer homem (as mulheres nunca perceberão isto) não confundo masturbação com sexo. Porno e amor. Estou farto de clausura. Isso sim. E desejo ter desejo. Soltar a minha líbido na cidade como um galgo na pista, um cação bebé nas águas do Atlântico, um estorninho no entardecer. Quero fazer aquele barulhinho que o Hannibal Lecter fazia com a boca no Silêncio dos Inocentes, ser um guarda de palácio de Teerão e ter um frémito a ouvir ao fundo uns stilettos a debicar o mármore. Para depois, um microssegundo após, uma fração de um piscar de olho, voltar a ser o civilizado e polido do século XXI que já é 99% de mim e conter e envergonhar esse porco horroroso que se manifestou nessa liberdade pós-pandémica e tirou o ‘mojo’ da ‘flat line’ e lhe devolveu uma batida cardíaca.




Luís Pedro Nunes —— cronista, comentador

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on email
Share on google