crónica —— o lugar do outro

Bernardo Mendonça

Já derramei muitos mares por cima dessa âncora

Bruno vive na sombra, pelos becos e ruelas de Quarteira, no Algarve, uma das zonas do país com mais criminalidade. É conhecido por “BT”. A polícia tem-no debaixo de olho, controla-lhe os passos e tem-no referenciado como pequeno traficante de droga. Ele não quer nada com a “bófia”, foge do seu caminho, garante que se deixou da vida do crime, quer é saber se há ondas para surfar no mar e diz estar à procura de um trabalho “honesto”. Cruzámo-nos com ele por acaso num café de Quarteira, frente a uma casa de jogos. Os jornalistas quando querem morder uma história são piores que cães. As tatuagens falaram por si. Contam os seus amores e escolhas à margem da lei. Na perna, a reprodução de uma fotografia sua em que empunha um revólver de calibre 38 e um molho de notas de euro. Pose de “gangster”. De “boss”. Como nos filmes. Nos últimos tempos faz recados e biscates para uns amigos que têm um estúdio de tatuagem em Quarteira. A conversa ocorreu à porta desse estúdio. De óculos escuros, voz sumida, Bruno falou de si, das suas escolhas, um cigarro após outro, a escorregar de vez em quando o olhar para o telemóvel para trocar mensagens. No momento do retrato, os amigos, tatuadores e surfistas que com ele cresceram, aproximaram-se para assistir e opinar: “Faz pose de G [dji, a inicial de “gangster”, soletrada em inglês]. Mas o melhor é mesmo ouvi-lo. Porque há pessoas que são puro cinema. 


“G, mesmo! Fui G [“dji”] durante uns aninhos. Fui gangster. Mas deixei-me disso. Andava no tráfico de droga na Quarteira, vendia haxixe a amigos, num circuito controlado. A venda da droga rendia-me algum, fazia-se mais ou menos bom dinheiro. Tinha uma arma, um revólver de calibre 38 para defesa, para intimidar, nunca disparei. É importante andarmos armados nessa vida, prova força. Ficamos mais machos. “Tudo” e “Nada” são as palavras que tatuei nas duas mãos. Tem sido a minha história. Nuns dias tenho dinheiro e droga, sou grande ‘boss’, noutros não tenho nada. Mas deixei-me disso. Estou bem, estou melhor. O crime nunca leva a lado nenhum. Só problemas e isso. Tive várias chatices com a polícia.


Não posso voltar ao mesmo, senão levam-me preso. Tento evitar ao máximo certos amigos que andam na vida da droga. E a polícia controla-me. Não me podem ver, os chibos. Se calha passar por eles, vêm logo ter comigo, revistam-me. O que me obriga a estar muito tempo em casa e a andar a ziguezaguear pelos becos, para evitar confusões e merdas. Agora só fumo ganzas à noite, para relaxar, e é tudo. Estou desempregado. Ou melhor, não tenho emprego. Querem saber a verdade: Nunca tive um trabalho. E sinto-me mal com isso. Com esta crise e na minha idade, sem ter qualquer experiência, é difícil arranjar algo que dê dinheiro. E sou discriminado por causa das tatuagens, pelo aspeto. Ninguém me dá trabalho. Julgam que não presto. Eu quero mesmo trabalhar.


Estou inscrito no Centro de Emprego há cerca de um ano, pedi para me arranjarem qualquer coisa. Considero-me mais ou menos esperto, sou de fácil aprendizagem. Quer dizer, tem dias. Mas ainda não fui chamado. Pode ser que fique a trabalhar a tempo inteiro no estúdio de tatuagens, eles são três, posso ajudá-los a atender pessoal, a esterilizar material, a limpar a loja, a fazer recados. Moro em casa dos meus pais, são eles que me sustentam. É a situação que vivo. Também eles estão fora do mercado de trabalho. O meu pai está reformado, vive da pensão. Trabalhou uma vida inteira como litógrafo. A minha mãe está desempregada, era governanta num hotel, foi despedida, está agora a viver do subsídio de desemprego. Nasci e cresci em Lisboa, na Damaia, até aos 16 anos. Era um bairro social problemático onde só havia droga, tráfico, roubos, assaltos. Não me lembro da infância. Se calhar pelas drogas que já consumi. Mas só passei a consumir drogas na Quarteira.


Os meus pais mudaram-se para fugir àquele ambiente difícil. Quando vim para o Algarve comecei a praticar bodyboard, fui atleta federado, apanhei grandes ondas. Dei-me bem. Só que depois descambei para a vida do crime. Começou com uns charros e foram umas coisas atrás das outras. Atraiu-me o dinheiro fácil, não ter de trabalhar. Fiquei-me pelo 9º ano de escolaridade, não gostava da escola. Fui pai aos 29 anos. O braço esquerdo passou a ser o braço da minha filha. Tem o nome dela, Débora, e várias imagens do seu rosto ao longo dos anos, desde os 2 aos 8, a idade que tem agora. Também tatuei a sua chucha de bebé e a data de nascimento. A Débora é a melhor coisa que tenho. Era um desejo e aconteceu. Tive uma relação com a mãe dela durante quatro anos. O sexo era bacano. Ficava duro muito facilmente com ela. Mas correu mal. Não consigo ter só uma mulher. Fui tendo várias, uma aqui, outra ali, vocês sabem. Ela chateou-se e quis separar-se. Mas a minha filha será sempre parte de mim e esta é a maneira de lhe mostrar afeto. A Débora vive em Lisboa, com a mãe, e falamos quase diariamente ao telefone.


Quando ela for mais velha, vou contar-lhe tudo, os meus problemas com a droga e a polícia, para que não venha a ser como eu. Gosto de super-heróis. No braço direito tenho tatuados os meus heróis preferidos de banda desenhada da Marvel. Tenho a Jean Grey, o Thor, a Storm, a Mystic, o Hulk, o Homem-Aranha, o Capitão América. Também tenho o Batman e o Joker. No peito estão os rostos da minha mãe e da minha irmã. São ‘my queens’, as minhas rainhas e heroínas. A âncora que desenhei mesmo por baixo do olho direito representa o símbolo de Quarteira, terra de mar e pesca. Já derramei muitas lágrimas, muitos mares, por cima dessa âncora. Fui várias vezes ao fundo e levantei-me. A minha vida tem sido assim. Estou sempre a cair e a levantar-me. Pelo menos, sou bom nisso.



Vasco Colombo —— Ilustração

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