Diogo Faro

HUMORISTA


Qual foi o gatilho na tua vida para que te passasses a interessar e a dedicar a causas como o feminismo, o anti-racismo e LGBTQIA+?

—— Tem sido um processo. Sempre fui pela igualdade de género (há uns anos achava que isto era suficiente e que o feminismo não era o ponto da questão), sempre fui anti-racista e pro-direitos LGBTQIA+. Mas essencialmente no feminismo, o mérito é todo das minhas amigas que, ao longo de várias conversas, fizeram-me perceber o que é ser mulher. O que é ser assediada, o que é ser discriminada em função do género. Nada disto me tinha acontecido, e quando comecei a perguntar à minha volta, absolutamente todas as minhas amigas e familiares já tinham sido discriminadas, assediadas ou até vítimas de violência de género. Foi aqui que fui estudar a importância do feminismo e que senti que tinha de ser um aliado da luta.



O humor pode através do riso e da desconstrução transformar de alguma forma o pensamento dos outros, quebrar preconceitos e expor os ridículos de certas ideias mais retrógradas, misóginas, racistas, xenófobas, homofóbicas?

—— Sem dúvida alguma. Como em qualquer forma de arte, há artistas e correntes artísticas que se regem pela manutenção das ordens e desigualdades vigentes, mas há outros que querem romper com estas e expor aquilo que consideram que está errado. O humor pode ser uma forma muito poderosa de o fazer, mesmo que tenha o reverso da medalha que é de hostilizar através do ridículo. Mas sem dúvida que, tal como a cantiga é uma arma, o humor também o é. Muitas vezes, é mais fácil refletirmos sobre grandes problemas se o fizermos a rir.



É o humor de causas que atualmente mais te interessa fazer?

—— Não sei bem se o classifico como humor de causas. A maior parte do humor passa determinadas mensagens e ideias. Só que a maioria deste veicula as ideias vigentes, de forma mais ou menos ostensiva. Mas se formos por aí, também são causas, mesmo que estas sejam a manutenção do status quo. O meu crescimento enquanto cidadão e comediante tem-me levado muito mais para o questionamento da sociedade estabelecida nas várias vertentes, seja o feminismo, anti-racismo, lgbt, etc.



Recentemente foste alvo de duras críticas nas redes sociais ao seres fotografado a fazer o que condenavas acerca do não cumprimento do distanciamento social e uso máscaras. O que aprendeste com essa chuva de reações negativas? As críticas foram, até certo ponto, justas?

—— Uma parte das críticas foram inteiramente justas. Uma grande parte não teve absolutamente nada a ver com a covid e a preocupação com a saúde pública, mas sim com tudo o resto. Portanto, com as primeiras aprendi muito e vou continuar sempre a aprender. O resto é o resto.



Sentes que és para muitos um alvo a abater?

—— Não acho que seja um alvo a abater, estou longíssimo de ser uma vítima. Mas percebo que enquanto comediante e cidadão, e enquanto homem branco cisgénero heterossexual, defendo posições que são muito diferentes do que é normal de uma pessoa com estas características, pelo menos com visibilidade pública tão grande. Percebo e aceito que cause desconforto a muita gente. Espero que as coisas possam ir mudando aos poucos.



Ser amado e odiado é natural quando se toca em feridas abertas que dividem a sociedade. Ainda por cima usando o humor? Como tens lidado com isso? Vais abaixo? Ou já estás mais imune?

—— Não estou imune, claro. Muita gente acha que por termos exposição pública têm o direito de nos dizerem o que quiserem, estando aqui a considerar coisas mesmo muito violentas. E claro que isto desgasta psicologicamente. Agora, sei que faz parte de ter um trabalho público, estar disponível para as críticas. Por isso, mesmo não sendo imune como acredito que ninguém seja, consigo ir lidando com o ódio diário que me vai chegando. Mas isto também muito graças a ter uma família e amigos incríveis.



Quais as máscaras que importa tirar no campo da sexualidade e do género?

—— É fundamental que percebamos que uma quantidade absurda do que é a sexualidade e o género são construções culturais. Alguém disse que as coisas eram assim, e o resto acreditou (de uma forma muito simplista). Mas a verdade é que grande parte das crenças que temos em relação à sexualidade e ao género está relacionada com estruturas de poder e a manutenção de determinada ordem social. É urgente falar-se sobre papéis de género e as expectativas que estes geram (um homem que está com muitas mulheres é normal, mas uma mulher que está com muitos homens já não?), é urgente falarmos de masculinidade tóxica e dos mitos de macho alfa que promove (um homem quer mesmo ter sexo em qualquer altura e em qualquer lugar?). É preciso fazermos uma grande desconstrução de todos estes mitos sobre monogamia, sobre castidade vs promiscuidade, binariedade de género e tudo o mais. Não é que toda a gente agora tenha que adorar participar em orgias, mas é perceber que há muitas formas de viver a sexualidade e o género de forma tão normal com o que agora ainda se convenciona como normal.



O humor é um dos melhores atributos na sedução?

—— É possível que sim. Mas não é preciso ser-se profissional. Aliás, ninguém tem paciência para comediantes que não saibam não estar a fazer a piadas o tempo todo. Agora, claro que o humor natural é dos melhores atributos na sedução. Mas aqui também precisamos de rever o estereótipo de género. Ouvimos muito o “adoro homens que me façam rir”, mas isto é tão válido como “adora mulheres que me façam rir”. Cultural e historicamente, as mulheres, pela opressão do patriarcado, não têm sido devidamente permitidas a ser cómicas. Mas a verdade é que o são tanto como os homens. Só é preciso que a sociedade não as iniba.



Como anda o amor em tempos de pandemia? E já agora, o que é o amor para ti? Andas cada vez mais entendido no assunto, ou pelo contrário, cada vez menos?

—— Amor é muita coisa. Sou pouco entendido, mas o meu maior entendimento é precisamente perceber esta abrangência do amor. A validade do amor tem de ter a ver com a sua vivência de cada um, e não com uma convenção geral que se faça dele. Em altura de pandemia, o amor anda mais curto, mais comedido, e com muita vontade de voltar ao normal. Lá está, o amor tanto pode ter uma noite como pode ter a vida toda.



E o que é bom sexo?

—— É as pessoas envolvidas, sejam duas ou mais, divertirem-se. Para isso é preciso que se quebrem estereótipos palermas para que a desinibição geral seja maior, para que se esclareça claramente o que é consentimento, e por aí fora. Bom sexo é sexo no qual as pessoas se sentem livres.



Dos livros que leste nos últimos tempos qual te arrebatou mais?

—— Tenho lido mais livros políticos, portanto nada que me dê propriamente tesão (riso). E apesar de também não ter nada de sexual, li recentemente “As Cores da Infâmia” do Albert Cossery, e gostei quase tanto como gostei do outro dele, “Mendigos e Altivos”.



E quanto a séries, o que viste recentemente que te agarrou por inteiro?

—— Vou-te pedir desculpa aqui, mas não tenho visto séries nenhumas nas últimas semanas, talvez meses, que me tenham marcado. Tenho visto muitos documentários e muitas reportagens. O documentário mais marcante foi o “The New Corporation” pela brilhante exposição do pesadelo que têm sido para o mundo as políticas neoliberais dos últimos anos.



Diz-me uma palavra que aches particularmente sensual. Que te faz estremecer sempre quando a ouves?

—— Democracia, por exemplo. Faz-me estremecer uma mulher que se diga feminista, anti-fascista, anti-racista, pro-LGBTQIA+ e anti-capitalista. É mesmo muito sexy.



Quando regressas aos palcos? Com que espetáculo? Há datas?

—— Ui ui. Voltarei. Mas as ideias ainda nem no papel estão. Prometo que te aviso quando houver vislumbre de novo espetáculo!



Terminemos esta conversa com poesia ou literatura. Partilha connosco um trecho que mexeu contigo, que te acendeu…

—— Não digo que me acenda, mas deixo o meu poema preferido.

Careful poetry
And careful people
Only live enough to die safely


Charles Bukowski




Bernardo Mendonça —— entrevista
Fotografia —— programa Desta Para Melhor

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