CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Luísa Ferreira Nunes

Admiráveis formas de sexo reprodutivo nos animais

Comparada com as multifacetadas formas reprodutivas dos animais, as dos humanos são coisa simples. Muitas espécies, para se propagarem, usam estratégias imensamente criativas, quase excêntricas, como “roubar” esperma , dar à luz sem nunca ter tido contacto com um parceiro sexual, por clonagem, ou hibridando/cruzando-se com indivíduos de espécies diferentes. 



Alguns destes métodos não convencionais têm feito os cientistas repensarem os princípios básicos da biologia reprodutiva. Senão vejamos, para o pequeno peixe da espécie Poecilia formosa (Amazónia), cuja população é só constituída por fêmeas, o “acasalamento” é realizado com machos de outras espécies, no entanto o espermatozóide do macho, só serve para estimular os óvulos da fêmea, não para fecundá-los. A sua descendência são clones das mães e não herdam traços genéticos do macho. 



As fêmeas de tubarões-inchados (Cephaloscyllium ventriosum) criadas em aquários podem reproduzir-se sem necessidade de machos. Apesar de se pensar que se poderia tratar de um fenómeno de armazenamento de esperma (que acontece com frequência em animais marinhos), os testes genéticos revelaram que as fêmeas reproduzem-se por partenogénese, fenómeno que acontece quando um óvulo se funde com um subproduto da produção desse óvulo para criar um clone da mãe sem a ajuda de nenhum macho. 



Também muitas espécies de crustáceos (camarões, lagostas e caranguejos) se podem reproduzir assexuadamente. O lagostim-marmoreado (Procambarus fallax) é um deles. As suas populações são numerosas, competitivas por habitat e constituídas apenas por fêmeas nas quais o embrião se desenvolve de um óvulo, sem que a mesma seja alguma vez fertilizada por um macho. E quando se trata de superar a competição com outras espécies, a assexualidade parece ser uma vantagem, pois apenas é necessário um individuo para iniciar uma nova população.



Em alguns animais, como a anémona-do-mar, a reprodução é ainda um acto mais eficaz! Após um período de crescimento, o seu corpo sofre uma partição e dá origem a outro indivíduo.



O hermafroditismo ocorre em animais onde um indivíduo possui os dois sexos. Invertebrados, como minhocas, algumas lesmas, ténias e caracóis, geralmente são hermafroditas. A reprodução pode ser um acto individual de autofecundação. Quando acasalam com outro individuo da sua espécie, fertilizam-se mutuamente e ambos geram descendentes. A autofecundação é comum em animais com mobilidade limitada em que a possibilidade de procurar um parceiro é mais difícil.



Na imensidão do oceano encontrar um parceiro não é uma tarefa fácil para um tamboril (Enterolobium contortisiliquum). Assim, as fêmeas retiram o máximo proveito de um eventual encontro. Os dois acabam por partilhar o seu sistema circulatório, o macho recebe nutrientes da fêmea, e a fêmea recebe o esperma e nutrientes do macho. Uma fêmea pode acasalar com vários machos, o que aliás convém para assim acumular nutrientes suficientes para o período de gestação.



Durante a época de acasalamento, os machos de louva-a-deus (Mantis religiosa), constituem cerca de 60% da alimentação da fêmea. Um macho que se aproxima de uma fêmea deverá abordá-la cautelosamente pois pode haver a possibilidade desta o ver como alimento e não como um potencial copulador. No entanto, mesmo após a união, a fêmea pode alimentar-se do macho para guardar reservas nutricionais que aumentem a sua fertilidade e consequentemente a produção de um maior número de ovos.



Os variados métodos e comportamentos reprodutivos nos organismos visam a perpetuação de uma espécie. A natureza é sempre adaptativa, “inventado” comportamentos conducentes à vida. Nas regiões mais vastas ou para aqueles com menos recursos para encontrar o “amor”, o mundo natural tratou do problema, a evolução equipou-os de multi-estratégias reprodutivas para que possam perdurar os seus genes na imensidão da biodiversidade do nosso planeta. E isto é muito mais do que sexo;)




Luísa Ferreira Nunes —— entomologista
Ilustração da autora

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