CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Sílvia Baptista

Sexualidade em stereo

Os tempos não estão brilhantes para a sexualidade. Não falo da sexualidade pandémica mas da endémica, da que parece ter cristalizado algures entre a masturbação infantil e masturbação acompanhada. No meio, ficamos todos nós, nesta ubiquidade sexual, rodeados de imagens, sugestões e ensejos, sem grande matéria interna que as acompanhe, entenda e faça gozar livremente.



Pois se é de gozo livre de que falamos, reparamos desde logo que a sexualidade está tudo menos liberta. Vive agrilhoada a vazios relacionais, conceitos de fast food sexual e mitos de performances heróicas. É uma espécie de sexualidade sem corpo, falha justamente do que tenta exaltar. E não tem corpo porque, desde logo, substitui o todo pela parte, o todo sensorial pelo monólito genital. O sexo acontece na genitalidade e o resto é paisagem.



Vamo-nos libertando nos costumes mas a vida interna está cada vez mais presa e talvez ambas as razões não se excluam mutuamente. Num tempo em que as conquistas sexuais se tornaram desporto mundial e os impulsos se gratificam com umas voltas no Tinder, onde fica o erótico? Mais: onde fica o desejo?



Entre outros enclaves mentais e sociais, diria que está perdido algures naquela sexualidade que achamos dever ser a nossa: impoluta e obediente. Queremos o sexo limpinho como queremos o nosso mundo interno vazio de incomodidades. Queremos a efervescência de um primeiro encontro mas sem a angústia da reciprocidade. Queremos excitação sem perturbação. Queremos tudo, menos a ambivalência, sem nos lembrarmos amiúde de que, na sexualidade como na vida, nada existe sem o seu contrário.



Felizmente, o inconsciente não está para nos fazer as vontades, embora esteja para nos levar ao colo em direção à resposta da pergunta do milhão de euros: o que é que me dá tesão? Parece simples, mas valerá a pena uma indagação interna e mais profunda, talvez até aos pontos de fixação onde largámos a capacidade de desejar livremente.



E para que nos possamos permitir a desejar, para que a fantasia amansada pela performance dê lugar a um erótico rico e não vergado ao doméstico, é preciso compreender a sexualidade como um reduto singular, relacional e intersubjetivo. Mas se nos concentrarmos apenas no genital, na penetração, no orgasmo, na excitação como sensação mais primária, estamos a ignorar o que verdadeiramente nos toca. O que tememos?



Talvez a entrega ao outro, talvez o despojamento, talvez aquilo que torna a sexualidade este campo umas vezes florido, outras vezes minado: o prazer de trespassar e ser trespassado. De penetrar, mas de penetrar tudo. O corpo e a psique. Com uma líbido que procura o outro inteiro e não as partes que conhece, que afecta e se deixa afectar, que perturba e se deixa perturbar. Esta sexualidade líquida, com os seus trejeitos sonoros e sem jeito para a motricidade fina, não partilha da noção dialética e curiosa de uma sexualidade em stereo, em duas linhas de movimento, entre o eu e o outro, e entre o que poderá nascer de permeio. Mas vamos sempre a tempo de mudar de estação.




Sílvia Baptista —— psicoterapeuta

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on email
Share on google