CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Patrícia Reis

Sexo por boa educação? Não, obrigada

Aprender a dizer “não me apetece” sem correr o risco de morrer de culpa, arrastada naquele mar de pouca auto-estima e de interrogação permanente sobre quem se é ou quem se quer ser, é tarefa árdua e leva anos a conseguir. Pelo menos, foi assim que aconteceu comigo. Sempre que converso com adolescentes sobre o início putativo da sua vida sexual, digo-lhes: sexo por boa educação não é bom, não deve ser uma opção. As pessoas precisam de comunicar e de entender e o desejo importa que seja mútuo. Num mundo de pandemia e de redes sociais, de namoros por mensagens escrita, sem o auxílio da expressão facial ou da entoação de voz, tudo se torna muito mais complicado. Diria que esta nova geração tem uma dificuldade em exprimir-se dentro de um registo de construção de intimidade. Depois, se calha a ser sincera, penso como foi comigo, malditos anos 80 do século passado, com permanentes no cabelo e roupas com chumaços nos ombros, e sei que a intimidade não tem como acontecer nessa fase da vida.


Levei décadas a chegar onde estou, numa relação longa, de quase 18 anos, com o entendimento tácito de quem sou e de quem é o meu parceiro. O que gosto. O que não gosto. O que me sinto confortável em dizer e o que prefiro calar? Sim, isso também. Não creio que seja possível ser 100% sincero com quem se ama, porque existe, voltamos ao mesmo, essa hipótese de magoar e quando se ama não se quer dor ou sofrimento, quer-se bonomia, bem-estar e riso. Mas sexo só por boa educação ou por frete? Não, obrigada.




O sentido de humor é fundamental para que possamos viver a nossa sexualidade. Com a idade existem imensos achaques que temos de aprender a driblar: são as costas que doem, uma inflamação no trocânter, a menopausa, uma líbido menos activa. Tudo isto é real e faz parte da vida, temos de saber viver com o corpo que temos. A inevitabilidade biológica, que leva à traição do corpo, pode ser problemática, sim, não temos como negar isso, mas a intimidade, se for real, ajuda a ultrapassar os momentos menos bons, as dores e as securas vaginais, as erecções menos prolongadas. Se o desejo é o mesmo, se o amor nos une a alguém, se sabemos quem somos, a nossa sexualidade pode ser uma vivência plena e feliz.




Converso sobre isto com os mais novos, converso há anos, porque me vão chegando os amigos dos amigos, os filhos dos amigos, os amigos dos filhos dos amigos. O princípio da conversa ainda se faz com meias-palavras e alguns rostos muito corados e eu vou devagar, mas faço por dizer tudo. Como sou uma romântica incorrigível e sei o que penei até chegar aqui onde estou hoje, digo-lhes que saber beijar é crucial, que o corpo é um território nosso e só depois da pessoa que escolhemos, que a masturbação é uma exploração saudável. Falamos de sexo seguro e de doenças, de pornografia e de como é um negócio e não a realidade. Há uma interrogação que os leva sempre ao riso: então, tu achas que as mulheres têm todas peito grande, são loiras e têm unhas de gel vermelhas? Ou, na versão feminina, assim me digam que já viram pornografia (geralmente levam mais tempo a admiti-lo): tu achas que todos os homens têm peitorais definidos e aguentam trinta minutos em posições variadas ou achas que é para a câmara? O riso ajuda à desconstrução. Com os mais novos e com os mais velhos. Afinal, sexo é indissociável da nossa vida e, já agora, convém que seja feliz e satisfatório.




Patrícia Reis —— jornalista e escritora

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