MODOS DE AMAR



Modo de amar – I


Lambe-me as seios
desmancha-me a loucura

usa-me as coxas
devasta-me o umbigo

abre-me as pernas
põe-nas nos teus ombros

e lentamente faz o que te digo:




Modo de amar – II


Por-me-ás de borco,
assim inclinada…

a nuca a descoberto,
o corpo em movimento…

a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo…

Por-me-ás de borco;
Digo:
ajoelhada…

as pernas longas
firmadas no lençol…

e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos como quem consome…

(Por-me-ás de borco,
assim inclinada…

os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)





Modo de amar – III


É bom nadar assim
em cima do teu corpo
enquanto tu mergulhas já dentro do meu



Ambos piscinas que a nado atravessamos
de costas tu meu amor
de bruços eu





Modo de amar – IV



Encostada de costas
ao teu peito


em leque as pernas
abertas
o ventre inclinado


ambos de pé
formando lentos gestos


as sombras brandas
tombadas no soalho




Modo de amar – V



Docemente amor
ainda docemente

o tacto é pouco
e curvo sob os lábios


e se um anel no corpo
é saliente
digamos que é da pedra
em que se rasga


Opala enorme
e morna
tão fremente


dália suposta
sob o calor da carne


lábios cedidos
de pétalas dormentes


Louca ametista
com odores de tarde


Avidamente amor
com desespero e calma


as mãos subindo
pela cintura dada
aos dedos puros
numa aridez de praia
que a curvam loucos até ao chão da sala


Ferozmente amor
com torpidez e raiva


as ancas descendo como cabras
tão estreitas e duras
que desarmam
a tepidez das minhas
que se abrem


E logo os ombros
descaem
e os cabelos


desfalecem as coxas que retomam
das tuas
o pecado
e o vencê-lo
em cada movimento em que se domam


Suavemente amor
agora velozmente


os rins suspensos
os pulsos
e as espáduas


o ventre erecto
enquanto vai crescendo
planta viva entre as minhas nádegas


Maria Teresa Horta —— Nasceu em Lisboa, onde frequentou a Faculdade de Letras. Escritora e jornalista é conhecida como uma das mais destacadas feministas portuguesas. Estreou-se na poesia em 1960 a sua obra poética foi coligida em Poesia Reunida (Dom Quixote, 2009), obra que lhe valeu o Prémio Máxima Vida Literária. Em 2012 publicou As Palavras do Corpo – Antologia de Poesia Erótica, no ano seguinte, A Dama e o Unicórnio, em 2016, Anunciações, vencedor do Prémio Autores SPA / Melhor Livro de Poesia 2017, Poesis (2017), Estranhezas (2018) e a antologia Eu sou a Minha Poesia (2019), o seu mais recente livro. É ainda autora dos romances Ambas as Mãos Sobre o Corpo, Ema (Prémio Ficção Revista Mulheres) e Paixão Segundo Constança H., e coautora com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, de Novas Cartas Portuguesas. Ao seu romance As Luzes de Leonor, a Marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis (2011), foram atribuídos os prémios D. Dinis e Máxima de Literatura. Em 2021 venceu o Prémio Literário Casino da Póvoa com o livro “Estranhezas”, atribuído no âmbito do encontro literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. O júri do concurso decidiu distinguir a obra desta autora, de 83 anos, considerando que “Estranhezas” “é uma exaltação da paixão, da beleza, do real concreto e efémero eternizado pela deslocação da esfera do tempo para espaços da escrita.”

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