CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Diana Santos

Pipi Público

A sociedade está cada vez mais interessada e curiosa com questões relacionadas com a sexualidade das pessoas com deficiência. Em pleno século XXI ainda ter de falar da minha sexualidade – de mulher com deficiência – como uma sexualidade “à parte” da norma, uns dias estimula-me, outros dias tira-me completamente a pica. Na verdade, até aqui nada fora do comum. A sexualidade é mesmo assim: Umas vezes no auge da tesão outras literalmente em período refratário.



Então, o que afasta dos referenciais e arquétipos sociais? O que nos leva a ser os “eunucos” da Era Moderna?
A palavra é CAPACITISMO!!! A falta de informação decorre da exclusão social e da consequente invisibilidade deste grupo, é um campo fértil para a disseminação do tabu da sexualidade e dos seus mitos pautados pela infantilização.



Hoje vou falar-vos do mito nº 1, o de que a pessoa com deficiência é assexuada e que não tem, por isso, desejos, interesses nem necessidades sexuais. Por isso, somos tidos como eternas “crianças” e ternos “anjinhos”, ou seja, puras e sem maldade, com pipis e não com vaginas portanto. Isto, numa sociedade predominantemente patriarcal e moralmente cristã, é perfeito para estarmos nos quartos desta vida…mas como bibelots bafientos de mesa de cabeceira!



Associado ao ideal de corpo normativo, os corpos diversos das pessoas com deficiência, acabam por ser tidos como não bonitos, nem atraentes nem desejáveis. E, por isso, não são boa opção para ter um relacionamento amoroso e/ou sexual, o que opera também como barreira ao direito reprodutivo baseado na crença de que as pessoas com deficiência são estéreis, têm disfunções sexuais relacionadas ao desejo, excitação ou orgasmo e que em geral têm filhos com deficiência. Tudo isto leva a preconceitos de que a pessoa com deficiência tem uma sexualidade desviante e não consegue usufruir dos ditos prazeres carnais.



Pois, hoje é um daqueles dias em que até estou com uma tesão inspiradora e apetece-me quebrar os vossos dogmas. A ver se nos entendemos:



Pessoas com deficiência são bonitas, sedutoras, excitantes e sexuais: Desde novinha adotei saias, vestidos e meias de liga em qualquer ocasião para facilitar o meu dia a dia na hora de ir ao wc o que acabou sempre por facilitar também na hora de namorar (por vezes o amor tem pressa!).



Pessoas com deficiência têm auto estima e praticam autocuidado: Tendo em conta que não tenho autonomia para a concretização de tarefas básicas como vestir-me, higienizar-me ou transferir-me, desde cedo percebi que a minha vulva era uma espécie de “loja do cidadão”. Não que eu quisesse tanta afluência mas, a verdade, é que quando a vontade de fazer xixi aperta não tens muito para escolher e aceitas qualquer mão amiga que te socorra! Talvez por esse motivo ter um órgão sexual arranjadinho e cheiroso sempre foi uma preocupação para mim. Depilação sempre em dia, produtos de higiene anti-odor, cremes na pubis e nas nádegas fazem parte do ritual diário. Nunca se sabe como vai acabar o dia…



Pessoas com deficiência também praticam sexo sem amor: Não somos umas Carochinhas à janela na esperança que passe o João Ratão. Há muitas crenças, principalmente em torno de mulheres com deficiência, que inibem o outro de se aproximar com medo de ser “acusado” de estar a abusar ou mesmo de magoar os sentimentos destas mulheres. Pois vos garanto, muitas delas (e dependendo dos gostos sexuais de cada uma) estão mortinhas por ser “magoadas” é com um valente palmadão no rabo e um suculento chupão no pescoço. Se o sexo for bom, na pior das hipóteses, fica no lote das experiências felizes, o que compensa a mágoa! Já agora…pessoas sem deficiência também se magoam quando as coisas não correm bem ou à falta de verdade nas relações. Ninguém está livre de sofrer desgostos de amor e, o que parece acontecer, é que TODOS sobrevivemos a isso.



Pessoas com deficiência podem ter uma sexualidade plena, quer a receber quer a dar prazer: Começar por dizer que sexo não é só penetração (embora a maioria das pessoas com deficiência nem tenha especial problema com isso) e ninguém precisa de ser contorcionista para fazer sexo. A disposição para o ato só precisa estar na mente e irradia para o resto do corpo. Depois, relembrar, que uma cadeira de rodas muito vezes pode ser um excelente recurso para a realização de uma fantasia, já que ter relações com uma pessoa na cadeira de rodas foge à regra da tão comum “posição de missionário”. A este nível, podemos dizer ainda que os brinquedos sexuais costumam ser grandes aliados deste grupo de pessoas, o que traz bastante criatividade e diversidade às relações.
Pessoas com deficiência também podem dizer não: Sim, embora muitas vezes não possamos escolher quem toca no nosso corpo para nos cuidar, somos pessoas seletivas no que toca a com quem queremos fornicar. O meu corpo é a casa de quem eu quiser e não é por ter uma deficiência que mereço menos ou diminuo os padrões de exigência. Nada de achar que vêm dar piropos e ainda temos de ficar agradecidas e agradecidos.



Depois de tudo isto, na hora H, não perguntem à pessoa se sente as pernas. À partida não será aí que a explosão acontece. Nem para mim. Nem para si. Nem para (quase) ninguém.





Diana Santos —— psicóloga e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência

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